Diário de Bordo - Recantos & Encantos X



74 - Ciudad del Este-PY - A cidade paraguaia é o paraíso dos sacoleiros de todo o Brasil, que todos os dias cruzam a ponte que liga os dois países para terem acesso aos produtos de custo bem mais em conta (e de qualidade discutível) que encontram do outro lado da fronteira. Desde que estive a trabalho em Foz do Iguaçu (na primeira foto), há cerca de 15 anos atrás, Ciudad del Este não mudou muito desde então, exceto pelos novos shoppings que surgiram e a modernização da famosa Ponte da Amizade percebida desta vez, mas a desorganização da cidade continua igual. Mas como local de compras o brasileiro não liga muito pra isso, pois que vai lá geralmente é para ganhar dinheiro com o que compra barato e revende por aqui com um bom lucro. 
Este retorno recente à cidade trouxe a alegria do reencontro de velhos amigos, como o de Higinio Esquivel Dominguez (nas fotos do shopping, entre meu irmão Almi e eu), quando pudemos rever esse grande e querido amigo, natural do país "hermano" e que visitamos em Ciudad del Este. O que não poderíamos imaginar é que esse seria nosso último encontro, pois pouquíssimo tempo depois de nosso regresso essa pessoa tão querida foi internada com problemas graves de saúde e não resistiu. Possivelmente estas fotos são seu último registro em vida, pois que o intervalo entre nossa visita e esse triste episódio foi muito curto. Alguns dirão que foi coincidência, mas para outros foi um encontro de despedida que o universo programou para nós três. 
Claro que diante desse acontecimento que nos marcou tanto, todo o resto passou para segundo plano em relação à narrativa, pois que a visita que deveria ser uma lembrança de um lindo passeio acabou transformado num sentimento doído, marcado pela saudade. Até breve então, querido Higinio, pois que um dia você de novo nos recepcionará e será nosso anfitrião aí em cima tão perfeito como soube sê-lo neste nosso último encontro aqui em baixo.




75 – Campos do Jordão-SP – Gosto de brincar que se lhe vendarem os olhos durante o caminho e retirá-lo somente ao chegar,  você vai pensar que está na serra gaúcha, pois que o frio não o levará a pensar que está no estado de São Paulo. Também, o município é o de maior altitude no Brasil, ficando a 1.630 metros de altura em plena Serra da Mantiqueira, no Vale do Paraíba, assim não é de estranhar tanto frio. Com cerca de 50.500 habitantes e distante 170 quilômetros da capital, Campos de Jordão atrai turistas do Brasil inteiro que querem curtir um friozinho para fugir à rotina típica do Patropi. Mas nem só de brasileiros vive o turismo de lá, pois europeus e americanos que querem matar saudades de suas origens também aparecem muito por lá. Enfim, a cidade toda vale à pena pela cultura local, suas ruas e avenidas passando por um corredor de hortênsias multi-coloridas, aquelas bebidas quentes de que nos lembramos só quando viajamos pra fora, e a beleza da cidade que mais parece um vilarejo da suíça. Vale muito à pena conhecer. Cidade turística por excelência, nunca fui convocado para nenhum trabalho em Campos de Jordão, indo pra lá somente a passeio.
76 – Campos dos Goytacazes-RJ – Conhecida como “a Capital do Petróleo”, posso dizer que esta cidade fluminense é o oposto de Campos de Jordão, pois que devido à atividade petrolífera na Bacia de Campos, de onde a Petrobrás retira o maior volume brasileiro do precioso líquido, Campos é uma cidade essencialmente voltada para a atividade profissional, e próspera em atividades de todo tipo que giram em torno do petróleo. Daí que perdi a conta dos trabalhos que fiz na cidade mais rica do norte fluminense, e nos municípios do entorno. Que me lembre, só fiz um trabalho lá pelo IBQN, na universidade local, pois que ali é um reduto amplamente coberto pelo SEBRAE-RJ, por onde executei incontáveis projetos de grande porte, como o “Estratégia de Desenvolvimento da Gestão Pública” (para gestores municipais de toda a região), “Central de Negócios”, “Franqueador Rio”, “Petróleo e Gás”, “Elaboração de Projetos para Captação de Recursos”, etc., para citar apenas os mais relevantes.
77 – Canela-RS – Encravada na Serra Gaúcha e coladinha com Gramado (apenas 6 km separam uma da outra), onde estive ainda este ano enfrentando uma temperatura que variou de 1 a 4 graus, Canela não tem lá grandes atrativos como a vizinha Gramado, nem é tão bonita quanto esta, arquitetonicamente falando. Mas pega carona no grande fluxo de turistas que a vizinha famosa atrai para a Serra, e se esforça para divulgar seus pontos turísticos, ainda que poucos, entre os quais se destacam a Igreja de Pedra e a famosa catarata do Caracol. Quem for pra lá tem que ir preparado, pois que zero grau alí não é como no hemisfério norte, onde já enfrentei 30 graus negativos e o frio não doeu tanto na carne. A diferença é que o frio das cidades geladas lá fora é seco, e a gente não sente tanto como no frio úmido daqui, acompanhado de muito vento e chuva ainda por cima. Na Serra Gaúcha o frio arde nas pernas, e parece não ter roupa que segure. Só com aquecimento interno mesmo é que se consegue suportar, acompanhado de um bom "fondue" ou muito chocolate quente. Canela está a mais de 830 metros de altura, com uma população de pouco mais de 40.000 habitantes. Esta sequência trouxe a lembrança da perda de dois grandes amigos e por coincidência pois, como já devem ter notado, as cidades vão entrando por ordem alfabética. Na foto de Canela, o rapaz alto que aparece à esquerda, na frente de uma pedra, é outro grande amigo que nos deixou no ano passado, e também veio de fora, mas desta vez de Barbados, cidade caribenha de possessão britânica. Seu nome era Nigel Taylor Querles. Na foto estávamos em viagem de carro, saindo do Rio até Porto Alegre pelo litoral, quando acampamos por todas as cidades que encontramos pelo caminho, o que durou o mês inteiro de nossas férias. Não sei por quantas passamos, mas foi uma das mais belas férias que tive ao lado de pessoas queridas, quando vivemos muitas aventuras juntos, muitas delas encantadoras, outras inusitadas ou até assustadoras ao longo do trajeto, como quando o carro literalmente decolou e fomos parar num barranco 10 metros abaixo, próximo a São Francisco de Paula, no planalto gaúcho. Felizmente ninguém se feriu, mas foi um susto e tanto!

78 – Cantagalo-RJ fica a exatos 200 quilômetros da capital, e continua bem interiorana, com menos de 20.000 habitantes ainda hoje. Como curiosidade, foi a primeira cidade fluminense da qual ouvi falar quando era garoto e para mim ainda só havia somente a cidade do Rio de Janeiro e, talvez, Niterói por conta de uma música da época que dizia: “Só vendo como é que dói / Só vendo mesmo como é que dói / Trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói...”. Só soube de Cantagalo porque no quarto ano do ginasial – atual 8ª. série – eu tinha um colega de sala ue era de lá. Carlos, era o nome dele, mas a gente o chamava de “Carioca” por conta do sotaque carregado nos erres. Nem podia sonhar no final daquele ano que em meados do ano seguinte estaríamos morando em definitivo em Niterói, que na época ainda era capital do estado do Rio. Mas Cantagalo mesmo eu só conheci décadas depois, quando fui lá a trabalho, pelo SEBRAE-RJ. A cidade já teve muito ouro na época do Brasil colônia, e atraiu muitos aventureiros que desafiavam o monopólio da Coroa Portuguesa na exploração de suas minas. Entre eles uma quadrilha de mercenários chefiada por um renegado português conhecido por “Mão de Luva”, que montou um garimpo clandestino na cidade. Os agentes imperiais já haviam desistido da batida na mata, segundo se sabe, quando um galo cantou e atraiu sua atenção para um local onde encontraram um dos capangas de Mão de Lula dormindo. Dominado e preso, ele entregou o lugar onde toda a quadrilha se escondia, e foi dessa forma que, em homenagem ao galo que possibilitou a prisão dos bandoleiros, a cidade trocou seu nome de Sertões de Macacu para Cantagalo.

79 – Capanema-PA – A cidade, localizada a 160 km da capital Belém, é uma das mais desenvolvidas do Pará, localizando-se no nordeste do estado, alcançada pela BR-316 que liga Belém a Maceió e a pouca distância do litoral paraense. Possui perto de 70.000 habitantes, e pode-se dizer que ainda é uma cidade pacata, mas com um PIB elevado para os padrões do estado por se tratar de um polo comercial bastante desenvolvido, daí porque atrai muitos negócios para a região, e que também me levou até de modo a desenvolver um plano de ação com empresários locais para implantação de um centro empresarial pelo Projeto Ideal do SEBRAE Nacional, levado a 69 municípios de 18 estados da União apenas por mim, e éramos quase meia centena de consultores trabalhando nele, só para ter uma ideia das dimensões do projeto.



80 – Caracaraí-RR – A cidade localizada na fronteira com a Venezuela era bem pouco conhecida dos brasileiros, até a crise venezuelana no governo Maduro que a levou para as manchetes dos jornais por conta do êxodo dos “hermanos” que buscavam asilo no Brasil. Com pouco mais de 20.000 habitantes, é conhecida como “cidade-porto” por possuir o maior movimento fluvial de todo o estado do extremo norte brasileiro. Não desenvolvi nenhum trabalho ali, passando por ela apenas para entrar no país vizinho com Dorí e família a caminho da cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén. Ele era o líder de um grupo de empresários de um plano de ação que montei em Boa Vista, Roraima. Na ocasião percorremos de carro os 250 quilômetros que ligam a capital roraimense a Santa Elena, passando pela divisa dos dois países numa “esticada” de lazer num fim de semana com a família dele, pois que nos tornamos bons amigos durante nossas reuniões de trabalho em seu estado de origem, onde Dourival era empresário conhecido e respeitado por sua liderança local. Perdão! Ao consultar meus registros encontrei um que mostrava que estive lá a serviço também, montando um Centro de Desenvolvimento Empresarial pelo Sebrae. É que são tantas cidades que de vez em quando a memória também falha.

81 – Carapebús-RJ – A cidade da região norte fluminense foi uma das 19 contempladas pelo programa de Gestão Pública levado a prefeitos e assessores das regiões norte e nordeste do estado, de forma a prepara-los para montar projetos voltados para captação de recursos para projetos que beneficiem seus municípios. Um lindo programa, aliás, que me deu muito prazer estar à frente, colaborando para o desenvolvimento dessas regiões menos favorecidas e para o país como um todo através do incentivo local. Carapebús possui menos de 15.000 habitantes, ficando ao lado de Macaé e Quissamã. Conforme já dito, através do SEBRAE-RJ cobri quase todos os pequenos municípios do estado, principalmente os que compõem as regiões norte e nordeste fluminenses. A origem de Carapebús vem do século XVII por concessão da Coroa Portuguesa de terras entre o Rio Macaé e o Cabo de São Tomé aos sete capitães que expulsaram os franceses da Baía da Guanabara depois que estes já haviam se instalado na capital e ameaçavam o domínio português no Brasil. O forte construído pelos invasores na Ilha de Villegagnon, no centro do Rio, por exemplo, (junto ao aeroporto Santos Dumont) vem dessa época, quando a ilha recebeu seu nome em homenagem ao almirante francês Nicolas Durand de Villegagnon, que em 1555 ocupou a ilha, num claro desafio aos portugueses que aqui chegaram meio século antes. Imagino que a ilha não tenha tido o nome mantido pelos portugueses – pois que foram inimigos – mas pelos historiadores que quiseram preservar essa parte da história.

82 – Cardoso Moreira-RJ – Assim como Carapebús, Cardoso Moreira foi outro município beneficiado pelo mesmo programa de Gestão Pública que conduzi na região. Faz divisa com Campos, Italva e São Fidélis, e é uma simpática cidadezinha com pouco mais de 12.000 habitantes. Seu nome foi em homenagem ao Comendador José Cardoso Moreira, que contribuiu muito para o local, inclusive como o maior acionista da estrada de ferro que escoava a produção de cana para beneficiamento de açúcar e cachaça até Carangola, no estado vizinho de Minas Gerais. A região até hoje continua como grande produtora de cana-de-açucar. A gente sabe que está chegando lá quando começa a perceber bastante cana esmagada no asfalto nas estradas das proximidades, que cai dos caminhões que as retiram das grandes fazendas de cultivo da região.

83 – Carolina-MA – Parece até nome de música, mas é uma simpática cidadezinha de pouco mais de 20.000 habitantes ao sul do Maranhão e às margens do Rio Tocantins. Foi mais um dos muitos municípios que integraram o Projeto Ideal pelo SEBRAE Nacional. Essa passagem por Carolina foi marcante por ter feito parte de uma longa (e cansativa) sequência de cidades percorridas de carro entre o Maranhão e o Tocantins para levar o projeto a vários municípios. O rapaz que aparece comigo na foto foi o simpático motorista do Sebrae que permaneceu comigo da primeira à última cidade que fizemos – e que não foram poucas – naquela marcante viagem por locais distantes e alguns até inóspitos da sempre marcante região nordeste do país, por suas peculiaridades e incrível diversidade cultural. Passei não só a conhecer mais o nordeste nesses viagens, como também me apaixonei por sua realidade única, que não encontra nada igual no mundo inteiro.

84 – Casa de Pedra-MG – Ainda que não possua status de município, Casa de Pedra é um vilarejo que integra a região de Congonhas – local famoso pelas obras do Aleijadinho – tendo sido criado a princípio para abrigar os trabalhadores da CSN. Minha ida à Casa de Pedra não aconteceu como consultor de grandes empresas parceiras de consultoria, como o Sebrae e o IBQN, mas pela TRIMENS, minha própria empresa com meus sócios Fort e Pina (ele também na imagem entre a placa e o Gerente da CSN local). Essa viagem marcou por ter sido uma de minhas primeiras viagens fora do estado como consultor organizacional, quando a Trimens Consultores esteve à frente de grandes projetos para a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e para a CBS (Caixa Beneficente dos empregados da CSN) que, por sua importância e extensão (30 meses), nos obrigou a fixar residência em Volta Redonda onde, inclusive, viabilizamos todo o treinamento de lojistas, equipe de segurança e funcionários do maior (e primeiro) shopping de Volta Redonda – o Sider Shopping Center – construído e administrado pela CBS. O grandioso histórico de trabalhos resultantes desse período foi o grande divisor de água entre minhas experiências como profissional de treinamento vinculado a empresas (como o último como Gerente de Treinamento da Verolme, em Angra dos Reis) e a minha vida a partir daí como consultor independente prestando serviços para grandes consultorias. Esta sequência de imagens e registros do “Diário de Bordo” está me permitindo revisitar todos esses lugares percorridos ao longo de 30 anos de carreira, recordar tantos fatos pitorescos de todas as minhas aventuras ao longo desse tempo, e ainda matar muitas saudades.

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