OS MUITOS ENCANTOS DE TANTOS RECANTOS

No meu caso específico o universo conspirou para que a realização, na forma como a definem, fosse além da tradicional tríade de gerar um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Ela se estendeu também ao profissional, emprestando ao conjunto um contexto ainda mais amplo. Assim, dos 22 anos de consultoria pelo Sebrae, os últimos seis me permitiram percorrer o estado do RJ todo; já pelo IBQN os projetos eram realizados em todos os estados, que precisei percorrer muitas vezes; e a PDCA – o terceiro dos meus parceiros, por sua vez fechou o ciclo com clientes concentrados na capital e no Grande Rio, em sua maioria, com algumas poucas exceções.
Pude reunir assim, com essas três parcerias de muitos anos, todas as variáveis que a geografia oferece: a microrregião sendo coberta por uma, o estado todo por outra, e o país inteiro pela terceira, restando-me o mundo para efeito de capacitação ou as merecidas férias sem custos, já que acumulava mais milhas aéreas do que conseguia usar! Combinação perfeita para quem, sem pensar duas vezes, não hesitou em substituir raízes pelo visto de cidadão do mundo, por conta de uma natureza avessa a “criar limo” como marca de personalidade.
Se apenas completar a tríade tradicional já não é reservado para todos, juntar ainda a ela o que de melhor poderia aspirar da vida profissional foi um prêmio que, por si só, justificou toda uma vida! Da experiência de simples funcionário do setor privado para a de empresário, até chegar à vida nômade de consultor, esse universo que parece gostar de mim foi bem mais generoso do que um presente que eu pudesse pensar por mim mesmo, me contemplando com projetos grandiosos, experiências gigantescas e pessoas inspiradoras. Sem eles a trajetória não poderia ter sido concretizada nos moldes em que foi, com muitas estórias sendo acrescentadas ao longo do tempo, e algumas das vividas antes permanecendo no meu depois.
Para atender esse chamado algumas rotas precisaram ser alteradas, como no dia em que abri mão de cargo conquistado por concurso no Judiciário – que é um sonho de muitos – e que seria o caminho natural para minha formação em Direito. Minha mãe me questionou algumas vezes se não me arrependi, e a resposta saía em forma de outra pergunta: “Será que eu poderia ter vivido tudo o que me foi permitido vivenciar se tivesse optado por um gabinete no Fórum do Rio?”... Seu olhar costuma não alcançar a essência da resposta, e até consigo entender porque. Mas só vivendo o que vivi para entender a razão de trocar a segurança da carreira pública pela eterna dúvida de onde estaria na semana seguinte, antes de me avisarem sobre o próximo destino! E ainda ganhar, veja só, pra ter tudo o que mais queria!
E é por isso que faço uso das imagens desse caminho – as físicas e as que permanecerão eternamente comigo – para costurar os retalhos das muitas aventuras, de tanto aprendizado e de todo o encantamento produzido para reuni-las numa história de vida que, sem o menor traço de hesitação, eu não trocaria por nenhuma outra! Coisas como as que se poderá encontrar nestes registros é que emprestam um valor inestimável a este compêndio no que toca às  memórias dos lugares mais incríveis que já pude conhecer, prestando-se ainda a reforçar o entendimento da maravilhosa diversidade deste país, como também a que se estende para além de nossas fronteiras.



Revisitar nas fotos cada uma das cidades percorridas em quase três décadas, onde as viagens de 2a. a 6a. eram a regra e o fim de semana em casa a exceção,  permitem resgatar um pouco das estórias que compuseram a maior parte da minha trajetória. Foram muitas as experiências emocionantes vividas em cada recanto do país e nos demais em que pude estar ao longo desses anos todos, onde o desejo de transformá-las em livro acabava sempre trocado pelos temas inerentes à própria atividade.  Tantos anos e tantos livros depois, elas corriam o risco de caírem no esquecimento, e foi quando me veio a ideia de, com base nos registros dos trabalhos e das milhares de imagens reunidas nessas viagens, separar uma de cada local e relatar o que de mais marcante vivenciei ali. 



E foi assim que os retalhos dessas memórias puderam ser recontados em forma de publicações curtas pelas redes, garantindo preservar-se o que trouxeram de mais marcante nesse universo da consultoria que tanto sentido emprestou à minha vida, funcionando como uma espécie de "livro de memórias virtual". 



É inevitável que as estadas diárias em locais dos mais remotos ao longo de período tão longo reúna uma diversidade imensa de hábitos, costumes e culturas que oferecem estórias curiosas e interessantes, além das aventuras que nos obrigam a viver por conta daquelas situações que escapam totalmente à rotina que se pensava seguir. E é nelas, principalmente, que pretendo concentrar a maior parte das narrativas.



Das minúsculas cabines dos monomotores compartilhadas apenas com o piloto até as gigantescas aeronaves dos vôos transcontinentais, todos os momentos vividos nos intervalos entre duas dessas viagens estão recheados de estórias que não merecem se perder no tempo.  Viajar nesses “teco-tecos” – onde muitas vezes íamos apenas o piloto e eu, sentado ao seu lado no lugar do co-piloto –  estava longe de ser uma exceção, já que a maior parte dos trabalhos que eu executava pelo Sebrae Nacional me levavam a vilarejos tão remotos que nem aeroporto tinham, mas apenas pistas de terra ou minúsculos aeroclubes no meio do nada. 


 
Esta foto ao lado, que eu mesmo bati do meu piloto, foi uma delas, quando sobrevoávamos a região da Serra dos Carajás, no Pará, no trecho entre Redenção – de onde eu retornava – e Marabá. Foi quando me ocorreu de perguntar ao piloto se era comum para ele voar sozinho para levar um único passageiro, e ele me respondeu que era mais comum do que estar com outro tripulante, já que era piloto particular. Perguntei então o que aconteceria se ele tivesse um mal súbito em pleno vôo. Ele virou-se para mim, ostentando um sorriso bem mordaz no rosto, e me perguntou de volta: “Você sabe voar?”. Precisava dizer alguma coisa? Sorri também e continuei olhando para os instrumentos e o airelon do co-piloto que se mexia à minha frente, agradecendo a Deus por ser do tipo que não entra em pânico em situações de emergência e mantém o sangue frio até que tudo passe. 


Assim, ao final da compilação de toda a sequência de "retalhos" resultante desse diálogo com as experiências vividas, um resumo deles virá ilustrar este blog como registro permanente, para não incorrer de novo no risco de perdê-los. Não faltarão registros interessantes e às vezes aventuras inusitadas para lembrar mas, antes de tudo, é uma história de vida que faço questão de não deixar passar em branco, nem que seja para que meus netos um dia possam saber mais um pouco sobre o avô deles.







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