Diário de Bordo - Recantos & Encantos IV



37 - Bird-in-Hand – Quem assistiu ao filme “A Testemunha”, com Harrison Ford, já pode ter tido uma ideia sobre a cultura Amish, que tem um de seus povoados na cidade americana de Bird-in-Hand, na região de Lancaster. Até ir lá não conhecia nada sobre eles, bem como sobre os Menonitas,que possuem bastante semelhança entre si, variando apenas em alguns de seus dogmas, mas no geral levam um tipo de vida idêntico, caracterizado por negar todo avanço tecnológico e manter como premissa um modelo igual ao das cidades da Idade Média, sem energia elétrica, água encanada, além de medicina e sistema educacional próprios. Amish e Menonitas são judeus ortodoxos dos mais radicais que se conhece, surgidos como dissidência do Protestantismo que, por sua vez, já era um ramo dissidente do catolicismo. Seu estilo de vida parece uma viagem a um passado de pelo menos 400 anos atrás, tanto na forma como se vestem quanto na recusa em se integrar aos hábitos e costumes de todo o resto da humanidade. As poucas fotos que retratam seus costumes são geralmente tiradas fora de suas vilas e à distância com potentes lentes, já que não se permitem fotografar. Locomovem-se por meio de charretes, e seus aparatos de uso doméstico ou coletivo são movidos manualmente ou por tração animal. Suas casas de madeira são construídas em sistema de mutirão por todos os homens da comunidade e de sua agricultura e artesanato sai toda sua sobrevivência para consumo próprio ou para venda aos turistas. A construção que se vê atrás de mim na foto central superior é uma espécie de armazém à beira da estrada que eles chamam de Barn, e onde comercializam seus produtos com visitantes que são atraídos por seus produtos. Eles não ficam dentro do vilarejo, já que não permitem estranhos em suas comunidades, como também qualquer membro delas que decida casar-se com alguém de fora – ou seguir seus hábitos – são sumariamente expulsos e obrigados a viver fora do local de origem. Só isso já faz de Bird-in-Hand um lugar que desperta bastante curiosidade a todos que por ali passem.

38 – Barra do Piraí-RJ – Apesar dos 130 anos de fundação, a cidade ainda mantém menos de 100.000 habitantes, fato bastante comum entre as situadas ao lado de outras que tiveram um crescimento acelerado por algum fator econômico, como é seu caso pela proximidade de Volta Redonda. Encravada no Vale do Paraíba, e com seu nome extraído do Rio Piraí, que ali tem sua barra ao desaguar no Paraíba do Sul, sua curiosidade histórica é ter sido o primeiro município emancipado do regime republicano, pois que este ocorreu em 1889 e B. Piraí tornou-se município no ano seguinte. Outro fato histórico importante é ter nela o entroncamento ferroviário mais importante da América Latina, que faz a ligação entre Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Durante os 5 anos em que, por motivos profissionais, morei em Volta Redonda, Barra do Piraí se apresentou como parte do nosso “reduto” comercial, com vários projetos de consultoria desenvolvidos ali.

39 – Barra dos Coqueiros-SE – Quando estive na cidade ela não tinha ainda a ponte que hoje a liga a Aracajú, ficando distante a apenas três quilômetros da capital sergipana, razão porque ainda acessei a cidade por barco. Após a contrução da ponte o município passou por um crescimento vertiginoso, recebendo vários bairros novos a partir da especulação imobiliária que ocorreu pela facilidade de acesso, pois que até então não passava de um vilarejo da região metropolitana de Aracajú. Sua importância consiste em abrigar o porto marítimo mais importante de todo o estado do Sergipe que, além de todos os produtos que recebe, também é utilizado pela Petrobrás, o que dá um “up grade” em seu nível de importância. Sem muita expressividade turística por se tratar de uma cidade com desenvolvimento bem recente, Barra dos Coqueiros atrai visitantes por sua cultura musical, baseado em ritmos típicos como o “Samba de Côco”, “Mazimba” e “Forró de Calçada”, que não se encontra em muitos locais pela região.
40 – Barra Mansa-RJ – Para quem conhece a região metropolitana do Rio, a melhor comparação é de que Barra Mansa está para Volta Redonda assim como São Gonçalo está para Niterói. Tanto lá como aqui, Barra Mansa e São Gonçalo funcionam quase como que um bairro das outras duas mais importantes e desenvolvidas, Niterói por já ter sido a capital, e Volta Redonda pela crescimento trazido pela Companhia Siderúrgica Nacional na era Vargas. Durante os quase 6 anos em que morei em Volta Redonda, Barra Mansa era nosso circuito permanente onde, pela proximidade, desenvolvemos vários projetos pela Trimens, consultoria que mantive com mais dois sócios após terem sido meus assessores enquanto gerenciava a Escola Técnica da Verolme, segunda maior empresa de Angra dos Reis à época, só perdendo para a Petrobrás.
41 – O que me chamou a atenção em Barreiras (BA) foi o grande número de gaúchos entre o público alvo de meu trabalho, justificado pela maciça imigração de produtores rurais da Região Sul, atraídos na década de 1980 pelo seu enorme potencial agrícola. A cidade, no extremo oeste da Bahia, é cortada pelo Rio Grande, maior afluente do rio São Francisco pelo lado esquerdo, e por três rodovias federais que fazem da cidade o maior entroncamento rodoviário da região. O Rio Grande ali passa caldaloso, tendo fama de ter ceifado a vida de muitos aventureiros arrastados por suas fortes e traiçoeiras correntes profundas que literalmente sugam as pessoas para o fundo sob uma aparente placidez na superfície, e onde sua beleza se mostra como perigoso convite ao mergulho. A curiosidade histórica é que a região de Barreiras pertenceu a Pernambuco até 1824, quando D.Pedro I a retirou do território pernambucano como punição pelo movimento separatista (a Confederação do Equador), reduzindo seu território de 250 mil km² para os 98.000 km² atuais. A abundância de árvores da borracha foi decisiva para seu crescimento com essa nova atividade econômica. A cidade é conhecida ainda pelos seus imponentes casarões neoclássicos, arquitetura que sobrevive até hoje em sua maior parte mesmo após o crescimento urbano da cidade. Atingiu um grande desenvolvimento econômico pelo fato de se escoar pelo porto de Barreiras muita borracha, alimentos e ouro dos garimpos do estado vizinho de Goiás.
42 - Bauru é o município mais populoso do centro-oeste paulista, localizado a pouco mais de 300 km da capital, e com população de cerca de 350 mil habitantes. Possui um IDH muito elevado em relação ao país. O café ganhou força no município no início do século, porém se desvalorizou e aos poucos Bauru se industrializou, sendo a indústria a principal responsável pela urbanização do município. A região nunca foi escravocrata mesmo no auge da escravidão no Brasil, motivo de ter uma população negra bem menor que a média do estado, enquanto que a de descendentes japoneses é maior do que a média brasileira. O município foi uma área importante de cultivo do café no início do século XX, e em 1906, foi escolhido como ponto de partida da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, um prolongamento da Estrada de Ferro Sorocabana que ligou Bauru a Corumbá, no Mato Grosso do Sul, junto à fronteira com a Bolívia. Na primeira metade do século XX se tornou o  principal polo econômico do estado. Bauru se tornou conhecida por um sanduíche que ficou célebre e que ainda hoje leva seu nome, criado por um advogado local no Largo do Paissandú, na capital paulista na década de 1930. Mais tarde o sanduíche ganhou fama nacional por ser servido no "Zé do Esquinão", bar tradicional do centro de Bauru, A receita original do sanduíche leva pão francês, rosbife, fatias de tomate, rodelas de picles de pepino e queijo branco derretido, e até hoje mantém sua fama em todo o país. O município entrou na minha história ainda na infância e bem antes de voltar lá a trabalho décadas mais tarde, pois que saíamos de Campinas para visitar uma irmã de mamãe que morou lá com a família antes de se juntarem a nós depois na nossa cidade. 

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