Diário de Bordo - Recantos & Encantos VI


47 - Bruxelas-BEL – O nome original – Brussels – é bem mais bonito, né? Conhecida como “a capital da União Europeia" (mesmo sem a Europa ter uma capital oficial) por hospedar grandes instituições como a Comissão Europeia, o Conselho Europeu, a OTAN e perto de 75% do Parlamento Europeu na capital belga. A cidade fica bem no centro da Bélgica, com uma população de mais de 1,8 milhões na sua região metropolitana, o que a torna a maior do país. Começou a acolher essas instituições em 1957, num lugar da cidade conhecido por "bairro europeu", e considerado como centro do poder do continente. É visível entre os habitantes de Bruxelas o orgulho que sentem do seu papel na Europa atual. Essas instituições fizeram da cidade uma espécie de sede multilíngue de organizações internacionais com predominância do francês, ainda que o idioma oficial seja o holandês, mas com  ambas as línguas mantendo status de idiomas oficiais.  Localizada em local que segue o curso do rio Sena, que também corta Paris, Bruxelas cresceu muito como importante rota comercial europeia. Quem a vê hoje não imagina que foi quase destruída em 1695 pelo rei francês Luiz XIV, quando mais de 4000 casas foram incendiadas, incluindo as construções medievais da Grand-Place, um de seus mais importantes marcos turísticos e históricos. Depois da independência, em 1831, a cidade passou por grandes  transformações. Atualmente abriga um grande número de imigrantes, com 70% de sua população de origem estrangeira ou naturalizados, inclusive latinos do Brasil e do México e imigrantes de países que eram colônias da Bélgica, como as africanas Ruanda e Burundi. A administração da Bruxelas capital é totalmente bilíngue, e a política flamenga local cobra há décadas que a parte flamenga da capital seja separada de Bruxelas, fenômeno que, na minha opinião, é comum em países colonizados por nações diferentes, como o Canadá. Neste, parte do país fala francês e a outra metade o inglês, e os dois lados possuem muitos separatistas querendo transformá-lo em dois países, como me ficou claro quando estive lá. Falando agora como turista, a arquitetura de Bruxelas é lindíssima, misturando construções medievais (como o Grand Place) com prédios moderníssimos (como os das instituições da União Européia). O Grand Place é o mais famoso, e desde 1988 se tornou patrimônio mundial da Unesco. Outro marco que atrai muito turista é o Palácio Real da monarquia belga.  
O Atomium é outra construção importante na arquitetura local dedicada à ciência. Conhecido como “a torre Eiffel de Bruxelas”, possui uma estrutura de 103 metros de altura que foi construída para a Feira Mundial de 1958. Isso equivale a um edifício de 35 andares, e é toda formada por esferas de aço ligados por tubos, imitando a estrutura química de uma célula. Bem ao lado fica o parque Mini-Europa, com maquetes de edifícios famosos de toda a Europa. Outro símbolo da arquitetura de Bruxelas é o Manneken Pis que me gerou, particularmente, uma paixão especial, e adivinha porque: na praia de Botafogo, aqui no Rio, temos uma réplica dele, exatamente igual ao original, que o carioca chama de “Manequinho”, e que costumava ser vestido com a camisa do Botafogo sempre que o time vencia o campeonato. O irmão mais famoso de lá fica no centro de uma fonte jorrando água pelo “pipi”, também construído em bronze como sua cópia carioca, e se mostra como outra grande atração turística da cidade.
Outros marcos da arquitetura local incluem o Parque Cinquentenário (que é mostrado na foto), com o seu arco triunfal e museus próximos, e os edifícios das instituições da União Européia. O centro da cidade é notável por suas casas em estilo flamengo e os edifícios em estilo Art Nouveau. Os edifícios modernos do Espace Léopold também são exemplos desse período na cidade. Bruxelas é conhecida por seu waffle, chocolate, batatas fritas e seus inúmeros tipos de cervejas. A couve-de-bruxelas, que aqui também se usa, é parte integrante da gastronomia local e possivelmente teve origem por lá.  A cerveja belga, no estilo famoso de cerveja do tipo Lambic,  é produzida em torno de Bruxelas, cujas leveduras vêm do vale do rio Sena. Embora eu não seja apreciador de cerveja, quem gosta diz que a do tipo Kriek (cerveja de cereja) é bem mais suave que as outras e goza de muita popularidade. Nesse quesito meu filho e nora poderiam dizer mais do que eu, já que são requintados apreciadores da bebida em sua versão artesanal e correram parte da Europa provando suas diferentes variações.

48 – Belém-PA – A capital paraense é uma cidade histórica localizada às margens da baía de Guajará, sendo a capital mais chuvosa do país por estar junto à Amazônia. O paraense afirma que em Belém a chuva tem hora marcada às 4 da tarde, todos os dias, e que serve como referência para os encontros “antes ou depois da chuva”. A cidade experimentou seu apogeu na época da extração da borracha, que atraiu muitos europeus que tiveram forte influência em sua arquitetura. Por conta dessa invasão europeia já ostentou o título de “a Paris brasileira”. Possui verdadeiros tesouros arquitetônicos de fama internacional, como o Theatro da Paz e o Teatro Amazonas, entre muitas igrejas históricas, monumentos, fortes e museus. Outra característica fortíssima da cidade é sua gastronomia, que talvez só encontre concorrência na baiana, mas única em seu gênero, que tem origem nas muitas etnias indígenas da região amazônica. Diferentemente da Bahia, cuja comida é de origem africana por ter tido a maior concentração escravagista do Império, Belém possui uma gastronomia verdadeiramente brasileira, que mistura todos os ingredientes das tribos que ali moravam, bem como temperos e frutas típicas da Amazônia. E quando se fala em comida na capital paraense, somos remetidos ao seu famosíssimo mercado do Ver-o-Peso, onde se pode encontrar praticamente tudo o que compõe seus famosos pratos típicos, como pato no tucupitacacámaniçobatucunaré cozido, caruru, etc., que o belenense adora acompanhar com jambu e farinha d’água. Das frutas típicas a mais conhecida nacionalmente é o açaí, mas também tem o cupuaçu, o bacuri, a pupunha, o tucumã, o muruci, taperebá, e sabe-se lá quantas mais que não se pode encontrar em qualquer outra região do país. Belém é a capital das mangueiras, pois tem milhares delas nas ruas da cidade, e o paraense diz que por causa delas ninguém em Belém morre de fome. Os taxistas reclamam porque quebram seus para-brisas ao cair das árvores, mas a população, de uma maneira geral, vê nas mangueiras uma de suas marcas. Pra resumir, basta dizer que Belém tem um restaurante considerado como um dos 50 melhores de toda a América Latina – o Remanso do Bosque – graças a um cardápio todo baseado em ingredientes típicos da Amazônia. Minha estória com Belém começou bem antes de começar a ir pra lá a trabalho, quando tive uma namorada que morava em Icoaraci, um dos seus bairros litorâneos ao norte da cidade, próximo à ilha de Mosqueiro. Foi ela quem me apresentou às delícias da culinária local, e também à famosíssima cerâmica marajoara, pois que Icoaraci é cheia de cerâmicas que produzem suas lindíssimas peças artesanais. Quando voltei a Belém encontrei-a bastante verticalizada, com seus arranha-céus imensos concentrados no bairro Umarizal, bem como o moderníssimo polo gastronômico do porto, o Estação das Docas, que inclusive serviu de inspiração para o Porto Maravilha do Rio. Mas aqui no cantinho do ouvido: eu continuo apaixonado é pela Belém histórica, naquele cantinho logo depois do Ver-o-Peso, com aquelas ladeiras ainda calçadas com paralelepípedo, não sei se pelo local mesmo ou pelas lembranças da Belém que conheci na década de 1970. Nunca esqueci de um frango na chapa que comemos no Miako (nem sei se ainda existe!), e dos mais de 50 sabores de sorvetes numa sorveteria ali perto, que dava tanta prova que nem se precisava comprar depois o sorvete. Outra experiência passada em Belém foi a festa do Círio de Nazaré, em homenagem à Padroeira, que também não encontra parâmetro em qualquer outro lugar. Simplesmente inesquecível!    Ufa! Difícil resumir tantas memórias em poucas linhas, e daí que me estendi mais do que de costume. Mas tudo bem: Belém merece!

49 - Belford Roxo fica ao norte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e a 20 km da capital. Densamente povoada para sua área de apenas 79 km², é o 7º. município mais populoso do estado. Desmembrada de Nova Iguaçu em 1990, Belford Roxo cresceu muito rapidamente, e divide com São João de Meriti o título de "formigueiro humano". Sua renda per capita é uma das mais baixas do estado, com uma infra-estrutura de serviços básicos de padrões menores que seus vizinhos da região metropolitana. A Baixada Fluminense de antigamente era cercada por pântanos e brejos, que emprestou o antigo nome de Velho Brejo à Belford Roxo em fins do século XIX, e já teve um porto para escoamento de açúcar, arroz, feijão, milho e cachaça. Segundo a FEEMA, seus rios são muito poluídos e comparados a valas de esgoto a céu aberto, com índices elevados de poluição orgânica, fecal e de metal pesado. O IDH do município está abaixo da média do estado e do país, revelando um histórico de abandono e desigualdade regional, apesar de uma taxa de alfabetização de 91,99% e uma expectativa de vida de 67,5 anos. A urbanização veio com a expansão das ferrovias e com o plantio de laranjas até o caráter rural ser substituído pelo de cidade dormitório, como a maioria dos municípios da baixada cuja população vai trabalhar na capital. Belford Roxo não foge a regra de um crescimento desigual e sem planejamento urbano, com enorme carência de infra-estrutura e serviços. O nome definitivo da cidade foi homenagem a um engenheiro maranhense que prestou grande serviço ao abastecimento de água do Rio de Janeiro, Raimundo Teixeira Belfort Roxo. Os últimos cinco dos mais de 20 anos de consultoria para o Sebrae foram de constantes deslocamentos para os municípios da Baixada Fluminense, sem que eu saiba precisar quantos foram para Belford Roxo.
50 - Belo Horizonte-MG – A capital de Minas está entre as mais modernas do país. Inaugurada em 1897, passou de 10 mil habitantes na época de sua inauguração para os 2,5 milhões de hoje em apenas 120 anos, quando se esperava que aos 100 anos atingisse cem mil, sendo o 6º município mais populoso do país. A ONU já a indicou como a cidade de melhor qualidade de vida na América Latina e a 45ª do mundo. Em 2013 foi o quarto maior PIB do Brasil e figurou entre as dez melhores para negócios na América Latina e 2ª. do Brasil, só perdendo pra São Paulo. Seu patrimônio cultural é um dos primeiros do país, incluindo os museus de Arte da Pampulha, o de Artes e Ofícios, o de Ciências Naturais da PUC, o Circuito Cultural Praça da Liberdade, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, e seu Mercado Central, entre outros. Tornou-se capital do estado quando Ouro Preto perdeu sua capacidade de desenvolvimento físico urbano por conta de sua topografia, gerando necessidade da transferência da capital para outro local. BH foi uma das primeiras cidades brasileiras planejadas, junto com TeresinaAracaju e Petrópolis, e seu traçado foge àquele padrão de “quarteirões” paralelos da maioria, com uma malha de ruas cortadas por avenidas em diagonal, quadras regulares e uma avenida contornando todo o seu perímetro, a Avenida do Contorno. Essa em que estou na foto e uma das centrais e mais importantes, a Afonso Pena. Seu projeto foi inspirado nas mais modernas cidades do mundo como Paris e Washington. Em 1943 ganhou o Conjunto da Pampulha, por encomenda de Juscelino Kubitschek, que era prefeito na época, reunindo os maiores modernistas brasileiros como Oscar NiemeyerPortinari, e Roberto Burle Marx e Sílvio de Vasconcelos, que definiram o perfil da cidade. Na primeira década do século XXI se destacou pelo setor terciário da economia, o comércio, os serviços e a tecnologia de ponta com seu Centro de Pesquisa do Google, que fomentou o turismo de eventos. Por tudo isso a cidade se consolidou como importante região de negócios e como polo nacional de cultura, além de grande eixo logístico  servido por uma malha viária e ferroviária que a liga aos principais centros e portos do país, com seus aeroportos (Confins e Pampulha) recebendo desde voos regionais a internacionais. Sua Estrada de Ferro Vitória-Minas liga a capital mineira a Vitória, no Espírito Santo. Seu potencial efervescente de empreendedorismo me levou inúmeras vezes à cidade para desenvolver trabalhos junto a importantes empresas locais, mas a cidade tem para mim muitos outros importantes atrativos com esse dinamismo todo que revela.
51 - Bertioga-SP integra a região metropolitana da Baixada Santista, com uma população próxima de 60.000 habitantes apenas, apesar de caminhando para seus 500 anos (foi fundada em 1547). Tem um jeitão que lembra muito as cidades praianas da Região dos Lagos, aqui no Rio. É chamada de "Cidade Condomínio" pelo fato da maioria das pessoas lá morar em casas de condomínio ou apartamentos, e é uma daquelas 15 estâncias balneárias de São Paulo, que já mencionei anteriormente. O nome da cidade vem do tupi, cujos índios habitavam o litoral paulista, que uns traduzem por “casa do peixe branco”, e outros como “casa do muriqui”. Ali viveram também os tupinambás, os tamoios e os tupiniquins, cujo território se estendia até Angra dos Reis, no RJ. Os portugueses construíram o forte de São João de Bertioga (o da foto) para se defender dos ataques dos tupinambás, e seu valor histórico é o de ser a mais antiga fortificação portuguesa no Brasil, tombada em 1940 pelo IPHAN. Na época, junto com a Fortaleza de São Felipe, pelo lado do Guarujá, fazia-se um fogo cruzado contra embarcações inimigas que tentavam entrar pelo canal do Rio Bertioga, protegendo a cidade contra novas invasões estrangeiras. Outro fato histórico marcante ligado ao forte é que em 1552 ficou sob a responsabilidade de Hans Staden, um famoso aventureiro alemão que passou nove meses como escravo dos tupinambás, depois de ajudar os portugueses e as tribos aliadas a expulsar os franceses de São Vicente. Ao retornar à Alemanha Staden ficou famoso tanto lá quanto aqui ao escrever um livro contando sua dramática história como escravo na tribo dos tupinambás – que eram antropófagos – alcançando grande sucesso. O livro dele foi transformado em filme em 1999 por um cineasta brasileiro. Outro fato marcante para nós, cariocas, é que foi de Bertioga que Estácio de Sá saiu para fundar a cidade do Rio de Janeiro em 1565, apenas 18 anos depois da fundação da cidade litorânea paulista. Em 1979 Bertioga voltou aos noticiários pela grande repercussão da morte de Josef Mengele quando nadava numa de suas praias. Para quem não lembra, Mengele foi o médico de Hitler responsável pelo extermínio de milhares de judeus em Auschwitz, fazendo com eles toda espécie de experiências bárbaras, como se lidasse com ratos de laboratório.
Com o texto até aqui dedicado à história da cidade, falta contar como eu entro nela. Ainda que tendo feito vários trabalhos na baixada santista, nunca fiz nenhum em Bertioga propriamente. Estive lá a passeio, especialmente numa viagem de carro com amigos, quando partimos daqui do Rio e fomos acampando em cidades litorâneas como Ubatuba, Itanhaém, Peruíbe, etc., ao longo de um mês inteiro, e uma delas foi Bertioga. O Forte São João (o da foto) tem grande importância nacional como primeira fortificação levantada pelos portugueses no Brasil, 60 anos após o descobrimento. 




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