Diário de Bordo - Recantos & Encantos VII
52 - Betim integra a região
metropolitana de Belo Horizonte, com uma população com pouco mais de 400 mil
habitantes. Seu nome veio de um bandeirante que era genro de Borba Gato e
integrante da bandeira de Fernão Dias, Joseph Betim. Nesse tempo o povoado se
chamava Arraial da Bandeirinha, e como toda povoação da época, começou em torno
de uma igreja (no caso de Betim, a Capela Nova do Monte do Carmo), geralmente
de jesuítas ou de alguma ramificação católica, já que a forte religiosidade
portuguesa trouxe todo o seu clero junto.
Isso, no entanto, não impediu o quase extermínio de nossos índios, os
verdadeiros brasileiros que foram encontrados aqui pelos famigerados
bandeirantes, que também esgotaram todas as riquezas em ouro e pedras preciosas
das Minas Gerais. A região do Arraial da Bandeirinha - atual Betim – se
consolidou como ponto de parada de tropeiros e de abastecimento das regiões
mineradoras de Minas. O evento mais
importante que me levou a Betim foi a vinda ao Brasil do diretor de meu curso
de especialização na Pensilvânia no ano anterior. A missão de estudos, que
envolveu cerca de 50 educadores brasileiros, foi realizada no Centro
Universitário de Qualidade Total na Educação (The Center for Total Quality
Schools) no campus da Penn State University, situada na cidade americana de
State College-PA. O expressivo êxito da missão dirigida a profissionais de
Qualidade na Educação fez com que nosso então diretor Seldon Whitaker viesse
conhecer as iniciativas educacionais da Grande Belo Horizonte, quanto então nos
reunimos novamente com ele para visitar as escolas da região metropolitana de
Minas, entre elas Betim e Contagem além, evidentemente, da capital BH.
53 - Blumenau fica em Santa Catarina, na região metropolitana do Vale do Itajaí, no sul do país. É a terceira cidade mais populosa do estado, , e a única de média a grande de Santa Catarina depois da capital. Seu nome vem do filósofo alemão Hermann Otto Blumenau, que chegou no local pelo rio Itajaí-Açu com seus colonos. Considerada a segunda cidade mais alemã do Brasil (a primeira afirmam ser Pomerode, ali do lado) tem forte apelo cultural nas festas dos imigrantes alemães, como a Oktorberfest, a segunda maior festa de cerveja do mundo, que se repete todo ano em outubro e agita toda a região. É destaque também em saúde e educação (com 5 hospitais e a Universidade de Blumenau), o que não é de se estranhar pela sua forte cultura europeia, além de um dos maiores índices de desenvolvimento humano do Brasil e sua política de preservação ambiental, com dois grandes parques na cidade: o Parque das Nascentes e o Parque Nacional da Serra do Itajaí. Fui algumas vezes a Blumenau tanto em lazer quanto a trabalho. A primeira foi naquela viagem de carro com amigos do Rio até Porto Alegre, onde acampamos em quase todas as cidades pelas quais passamos, especialmente as litorâneas, quando eu ainda tinha meus 30 anos. Em outra fui curtir a Oktoberfest, e achei fantástico o clima reinante na cidade durante mais de uma quinzena de duração da festa. E nas vezes seguintes fui lá para desenvolver projetos de consultoria e aplicar treinamento. No que toca ao título de “cidade mais alemã” depois de Pomerode, confesso que esperava mais de Blumenau diante desse histórico. No período em que estive ali para a Oktober Fest, e também na Festa Pomerana, da cidade vizinha, havia um forte estímulo da prefeitura local para a construção das casas em estilo alemão na cidade, que estavam desaparecendo a cada ano, o que contrasta com a cultura de preservação do povo alemão. Devem ter se contagiado com o pouco valor que o Brasil dá à própria história, e “pisado na bola” ao deixar que este mau hábito interferisse no modus vivendi da cultura local.
54 – Boa Viagem-CE – Uma das coisas que me chamou bastante à atenção no Ceará foi a religiosidade de seu povo. E não apenas em Boa Viagem – mostrada na foto – mas em todo o estado, como vi nas cidades em que estive, e que não foram poucas! E não me refiro ao nome de santo que muitas adotam, mas a uma particularidade que desperta ainda mais para o fato: enquanto que nos demais estados do país os monumentos quase sempre representam políticos de destaque, ou seus vultos históricos, no Ceará são imagens de santos e de Nossa Senhora que predominam. Poucos foram os municípios em que não observei a repetição desse hábito. Nas menores, então, esse detalhe se mostra ainda mais marcante. Boa Viagem, vista no mapa, fica no centro do estado, em região de sertão e próxima a Quixeramobim. Apesar de bem pequena (tem pouco mais de 50 mil habitantes) ela conta com um aeroporto regional para aviões de pequeno porte, que foi onde pousamos quando estive lá. A religiosidade local, bem como da maior parte do estado, se deve principalmente ao maciço processo de catequese dos índios pelos jesuítas, pois que ali era terra dos Tupis quando os portugueses chegaram. Mas nem só de imagens religiosas vive o povo de Boa Viagem. Bem mais recentemente um político saudosista resolveu eternizar o antigo nome da cidade por meio de um monumento. E foi assim que o Riacho do Cavalo Morto, que foi seu primeiro nome por conta de um córrego que sai do rio Quixeramobim, virou estátua. E ela é mais do que apenas exótica: eu diria que é bizarra, uma vez que mostra um casal de colonos, lado a lado, no meio da praça, olhando para um cavalo morto, sem pedestal nem nada. Os dois como pessoas locais olhando o bicho estirado no chão. A imagem do cavalo ainda é mais estranha porque mostra o animal rígido e inchado, com as pernas sem tocar o chão, como um cavalo morto de verdade em estado de quase putrefação, algo que não se veria em uma cidade grande. Coisa de político do interior pra justificar desvio de dinheiro público, só pode! Essas particularidades atípicas das cidades por que passei eram o que eu fazia questão de registrar para um dia, quem sabe, tê-las reunidas num livro, ideia que acabou migrando para este algum virtual. Para alguém que curte esse mergulho nas diferentes realidades locais os fatos vão além de curiosos: eles se revelam um prato cheio, culturalmente falando.
55 – Boa Vista é a pacata e simpática capital de Roraima, no extremo norte do país, que faz fronteira com a Venezuela, e uma das que mais visitei para realizar meus trabalhos pelo SEBRAE Nacional. Única capital no país que fica no hemisfério norte (por estar acima da linha do equador), tem mais de 300.000 habitantes, mas eu sempre me perguntava onde ficavam eles, porque as espaçosas ruas da cidade estavam sempre vazias, e nunca vi um único engarrafamento na cidade, como se todos os dias fossem fins de semana e os moradores estivessem todos fora do município, rss! O gostoso da cidade é seu jeitão de cidade do interior pelo sossego, mas moderna pelo design, com largas avenidas e rotatórias nos extremos delas. Quando parei de contar já tinha ido pelo menos 13 vezes à cidade, pois os centros empresariais que montei lá exigiam que eu fizesse constantes visitas para ajuste de rumos. O lado ruim era o calor forte, por estar um pouco acima da linha do Equador. Meu vôo costumava chegar sempre à mesma hora, pouco depois da 1:30h da manhã, e eu já saia do aeroporto suando dentro do taxi até meu hotel no centro da cidade, sempre o mesmo (o Aipana Plaza), que acredito era o melhor de Boa Vista, porque toda a tripulação do meu vôo também se hospedava nele, e acabamos até ficando amigos por conta das várias viagens no mesmo vôo. A vantagem é que me faziam concessões e privilégios, me servindo duas sobremesas ou duas bandejas de lanche, por exemplo, rsrs! Observada no mapa, a capital roraimense pode ser facilmente localizada se traçarmos uma linha reta acima de Manaus, e assim como a cidade manauara também é terra de muitas etnias indígenas. Os empresários locais me falavam que Roraima tinha cerca de 78% de seu território como propriedade indígena. Não sei até que ponto esse percentual confere com a realidade, mas pelo menos em Boa Vista ele chegava a mais de 46%, a tal ponto que pela grande população de mestiços, o povo de lá costuma identificar a si mesmo como “Makuxi”, que é uma das maiores etnias locais, e com predominância na capital do estado. Isso justificaria um dos mais belos monumentos da cidade, que a foto mostra apenas parte por seu imenso tamanho, e que fica numa espécie de barranco encravado na rocha onde as figuras com motivos indígenas foram esculpidas. Tem algumas coisas que nascem em nós e que a gente não explica. Meu carinho por Boa Vista é uma delas, que não sei exatamente como começou nem o que mais me atraiu nela, mas a verdade é que eu curtia muito estar na cidade, a cada nova ida lá. Lembrando que falo de uma Boa Vista de pelo menos uma década atrás, antes da crise venezuelana, e não sei dizer se a cidade continua tão pacata quanto era naqueles dias. Tudo indica que não.
56 – Bom Despacho-MG - Acreditem se puderem, porque eu também não acreditei: não encontrei uma única pessoa que mora lá que soubesse me contar uma palavra que fosse da história da cidade. E nem depois consegui encontrar nada sobre ela quando tentei pesquisar a respeito. Fiquei com a impressão de que o município não tem passado, apesar de seus mais de 280 anos de povoamento e 185 da fundação. Dá pra acreditar? Tudo que descobri foi que sua matriz do Bom Despacho tem o mesmo nome de outra igreja em Cuiabá, minha cidade natal, e que o apelido do município também é "Cidade Sorriso", como a de minha cidade por adoção, Niterói. Duas interessantes coincidências com a minha história.


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