Diário de Bordo - Recantos & Encantos XII
94 – Clearfield-EUA – Clearfield
foi uma das diversas cidades americanas onde realizamos visitas técnicas
durante minha missão oficial de estudos nos EUA, por convênio entre os governos
brasileiro e americano, dirigido a especialistas das três nucleadoras de
qualidade a partir de Collor de Melo. Vou por partes: o discurso do governo
Collor era “inserir o Brasil no primeiro mundo”, conforme ele declarou ao
assumir o governo, e uma das propostas era garantir um serviço público de
qualidade ao país. Com esse objetivo o primeiro passo foi constituir
“nucleadoras de qualidade” cuja missão seria introduzir nas empresas públicas
brasileiras os conceitos de qualidade conforme os padrões internacionais que
emanavam de três países: EUA, Inglaterra e Japão, cada qual com sua
metodologia, ainda que baseadas nos mesmos conceitos e instrumentais técnicos mundialmente
aceitos, e tidos como os melhores até aquele momento. Color escolheu então três
empresas “top de linha” na implantação de sistemas de Gestão pela Qualidade
para funcionarem como nucleadoras, ou seja, como as responsáveis pela
disseminação dessas metodologias por todas as instituições públicas do país,
cujo eixo estava posicionado no sudeste: o IBQN no Rio; a Fundação Vansolini em
São Paulo, e a Fundação Cristiane Otoni em Minas. Essas empresas – tendo o
Inmetro como “xerife” no Brasil – encabeçavam o sistema quando fui chamado pelo
IBQN para realizar um primeiro trabalho em Brasília, e a partir daí meu então
Diretor Administrativo Wilson Paulucci me convidou para seguir como consultor
contratado do IBQN, o que se estendeu por quase duas décadas. Quando ainda não
completara um ano de trabalho pelo Instituto, nosso Presidente Guilherme
Lameira me indicou para integrar uma missão oficial de estudos na Universidade
da Pensilvânia, reconhecida internacionalmente como a “Meca” mundial da
Qualidade. O objetivo dessas missões – periódicas e obrigatórias para as
nucleadoras – era uniformizar a linguagem da qualidade recebida dos três países
que ditavam as regras do sistema, e foi assim que segui para os EUA como único
representante do IBQN logo na primeira missão. Éramos em torno de 50
integrantes, entre especialistas em qualidade das nucleadoras (o meu caso) e
educadores de universidades públicas dos diversos estados brasileiros. E Collor
parecia empenhado no projeto, pois que durante a missão até fomos recepcionados
tanto na Casa Branca quanto na Embaixada Brasileira em Washington, pelo então
Embaixador Flexa Ribeiro. A
especialização em Penn State foi pesada: tínhamos aulas das 9:00 às 20:00h em
três turnos, só parando para as refeições, de 2ª. a 5ª. feira, e às sextas era
o dia reservado para as visitas técnicas a escolas americanas, onde passávamos
o tempo percorrendo instalações e participando de reuniões com a diretoria de
modo a absorver na prática detalhes sobre o funcionamento do sistema
educacional de diferentes distritos americanos (http://www.luizrobertobodstein.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=69&Itemid=85), e foi numa dessas
visitas técnicas que fui parar em Clearfield. A cidade, como se pode observar
pelas fotos, é simplesmente encantadora, como a maioria das cidades do interior
nos EUA, que não lembram nem de longe as nossas cidadelas interioranas. Exceto o
que se vê pelas fotos, não tenho muito a dizer sobre Clearfield pois que, como
em todas as cidades que foram objeto das visitas técnicas, passávamos o dia
todo dentro das escolas, não restando portanto tempo livre para conhecer os
municípios visitados, a não ser por rápidas paradas que nosso motorista fazia
ao longo do trajeto para tirarmos algumas fotos. Nos fins de semana sim, nosso
ônibus nos apanhava para nos levar a passeios inclusive por outros estados do
entorno – pois que ninguém é de ferro – e era quando aproveitámos mais essas saídas
livres para curtir um musical na Broadway, ir a um bom teatro-restaurante (uma
combinação perfeita!), tirar fotos e aproveitar as belezas do país como
qualquer turista.
95 – Coelho Neto-MA –
Coelho Neto é um município do Maranhão na divisa com o Piauí, com cerca de
50.000 habitantes. Pequeno, com a maioria de suas ruas ainda sem calçamento ou
com paralelepípedos, é uma típica cidadezinha do interior que cresce sem
planejamento por iniciativa particular que vai construindo suas casas da forma
que pode, como se pode perceber pela foto. Por se mostrar carente e sem atenção
do poder público, é um lugar com perfil para projetos do Sebrae que visam
formar empreendedores que possam estimular negócios e ampliar oportunidades
locais para os munícipes. E foi nesse espírito que desembarquei no lugar para
implementar capacitação em planejamento e empreendedorismo para os poucos
empresários locais.
96 – Conceição de Jacareí-RJ – Conceição de Jacareí
é um distrito de Mangaratiba, na divisa com Angra dos Reis, com apenas 3.000 habitantes e a 130 km do Rio.
Tem duas praias e uma queda dágua conhecida por "Véu de Noiva". Um
daqueles lugarejos construídos e até hoje habitados por pescadores. Muita mata
virgem, rio com queda dágua e muita pedra, cenário perfeito para fiéis de
matizes africanas que fazem oferendas a Oxum, rainha das águas sincretizada na
santa católica que deu nome a cidade, oferendas essas que a gente encontra em
grande quantidade pelas margens do rio. Na única vez em que estive em Conceição
de Jacareí as lembranças deixadas não foram nada agradáveis: eu e minha mulher,
na época, fomos convidados por um fotógrafo nosso amigo para um ensaio
fotográfico num sítio do qual ele era proprietário com outras pessoas, para os
quais seguimos em meu carro sem sequer passar por dentro da cidade. Havia um
lindo lago com muitas flores em meio a uma mata fechada, e a intenção era fazer
um ensaio artístico sem nossas roupas, aproveitando aquele cenário inebriante
de cores e natureza. Havíamos já tirado fotos incríveis quando surgiu um
sujeito de repente por lá, bem matuto, de chapéu de palha, e começou a nos
gritar impropérios como se fôramos ali para algum tipo de orgia. Gritava como
um louco querendo que saíssemos da área que ele agia como se fosse dele, e vá tentar
explicar para um sujeito criado em zona rural o que seria um ensaio
fotográfico. Nosso amigo fotógrafo não disse uma única palavra para conter o
homem – talvez por conhecer a mentalidade reinante – de modo que não soubemos como
lidar com aquilo nem houve clima para conversa, a menos que se partisse para sopapos,
claro! Apenas saímos muito aborrecidos com aquela situação constrangedora, e mais
ainda com nosso amigo que sequer tomou a iniciativa de explicar que tudo não
passava de um grande equívoco. Mas enfim, nada havia a fazer e só nos restou ir
embora como se estivéramos fazendo o que o homem insistia em nos acusar. Tempos
depois eu ainda lembrava daquilo com vontade de ter-lhe dado uns bofetes, mas
na ocasião ficamos sem ação já que o legítimo dono do lugar, que estava conosco,
não fez nada para impedir aquela situação estapafúrdia. Como explicar a um pescador
alterado e sem instrução, possivelmente fanatizado pelas crenças locais, que
entre um ensaio fotográfico com minha própria mulher num local privado e uma
cena de sexo explícito em lugar público – como ele parecia acreditar – havia
uma enorme diferença? Mas enfim, depois
de tudo passado, as fotos realmente ficaram muito bonitas, onde nada nelas deixaria
nossas avós constrangidas perante as venerandas senhoras do seu chá das cinco,
como vocês mesmos irão constatar, pois que felizmente o homem chegou ao final
da seção de fotos. Da cidade mesmo não tenho nenhuma, uma vez que nem entramos
nela, daí que as do ensaio entraram aqui como exceção, apenas como mais uma
aventura para lembrar e outra cidade para ser incluída entre as centenas que
fizeram minha história por esse “mundão-de-meu-deus”.
97 – Conceição do Araguaia-PA – Eitaaaaa! Parece que
esta sequência quis reunir algumas das mais emocionantes aventuras por que já
passei nessas minhas passagens por esse Brasil de muitas caras e estórias inacreditáveis
como a que vou contar a seguir. Como já devem ter percebido, não seleciono de
modo intencional as cidades que vou descrevendo, já que estão listadas em ordem
alfabética e mantenho essa lógica. Assim coincidiu mesmo das mais empolgantes
em termos de aventura chegar juntas. Conceição do Araguaia é uma cidadezinha
com menos de 50.000 habitantes no sudeste do Pará, na margem esquerda do baixo
Araguaia, região que ficou na memória do brasileiro por ter sido palco da
famosa “guerrilha do Araguaia” em 1972, na fase mais radical da ditadura
brasileira. Sabe-se que até hoje o Baixo Araguaia possui ex-guerrilheiros e ex-combatentes
da guerrilha, ainda que a maioria prefira não falar do assunto, optando pelo
potencial turístico que a guerrilha inspirou e que é bem explorado pelas
empresas de turismo locais, como é o caso do roteiro “Trilhas do Araguaia”.
Como já exaustivamente falado
aqui, o Sebrae Nacional é quem me levava à maioria desses “cantões” distantes
das grandes metrópoles cobertas pelo IBQN, por exemplo, que concentram as
grandes estatais e instituições públicas onde eu chegava com o objetivo de
implantar Programas de Qualidade pela nucleadora carioca. As maiores
“aventuras”, assim, ocorriam justamente nesses lugares, onde a vida segue um
curso completamente diferente do das capitais, o que dá a ideia exata dos
diferentes brasis que a gente encontra ao viajar por este país de dimensões continentais.
Minha aventura no Araguaia não esperou sequer a finalização do desembarque no
minúsculo aeroporto da cidade, e foi uma das situações mais inusitadas e tensas
por que já passei em toda minha vida.
Nosso avião acabara de
parar os motores, onde viajáramos o piloto e eu – ao lado dele na cabine de
comando – e mais quatro passageiros ocupando os dois pares de bancos às nossas
costas, pois que era um monomotor desenhado para transportar quatro pessoas
além da tripulação. O piloto saltara primeiro e eu logo em seguida, que viajara
do seu lado direito, cada um pelo seu lado. Os outros quatro passageiros
começaram a desembarcar pelo degrauzinho colocado à porta da cabine que se abriu toda na
lateral, enquanto o piloto colocava nossas malas no chão, que ia retirando de
um compartimento frontal, próximo ao bico do avião. Foi nesse exato momento que
ouvimos uma gritaria misturada ao som de motor de um carro em alta velocidade
que se aproximou e deu uma freada junto de nosso avião. Entre os gritos vários
tiros – pareciam rajadas – e a voz de um homem mandando que nos deitássemos de
cara para o chão... Não deu tempo para olhar em volta antes de obedecer e foi o
que fizemos, eu e o piloto, e pela visão periférica notei que os passageiros
fizeram o mesmo a pouca distância. A movimentação de pessoas por cima de nós
era frenética, e o que pude perceber era que três ou quatro homens – armados
com rifles ou metralhadoras, sei lá – pularam por cima de nós enquanto gritavam
que não nos movêssemos e se aproximaram do avião rapidamente, tirando algo dele
que eu não consegui saber o que era, nem entender direito o que estava
acontecendo, pois que tudo acontecera de forma muito rápida e inesperada!
Percebi os homens
correndo na direção que vieram, segundos depois, ainda aos gritos de “No lugar, no lugar!”, em seguida se
ouviu pneus cantando e um carro saindo em alta velocidade. Movi a cabeça para a
esquerda e pude ver um jeep aberto se
afastando em ziguezague à toda velocidade e saindo por uma cerca de arame derrubada a
uns 50 metros de onde estávamos. Algumas pessoas se aproximaram, eu ainda
estava confuso e sem compreender direito o que ocorrera, mas entendi que eles
perguntavam se estávamos bem, se ninguém estava ferido ou algo assim. Ficando
em pé vi que usavam uniformes e deveriam ser funcionários do aeroporto. Com tudo
mais calmo, perguntei o porquê de toda a confusão e descobri que nosso avião
trazia o malote de um banco local, e o resto foi fácil deduzir: deveria conter
valores que interessava aos bandidos que estavam esperando apenas pelo pouso do
monomotor para atacar e levar o que buscavam. Foi um burburinho total antes que
tudo se acalmasse, após o que descobri no hall do pequeno aeroporto o motorista
que me aguardava, também bastante assustado, que me indicou o carro no qual
iria me levar para o hotel.
O que sei é que ninguém
nos impediu de sair já que a polícia ainda não havia chegado quando deixamos o
local, pois entre a chegada e a saída dos bandidos não se passou mais do que
dois ou três minutos. Mas não sei do piloto e dos outros quatro passageiros que
chegaram comigo à cidade, que ainda ficaram por lá. O motorista parecia estar
ainda mais assustado do que eu, mesmo tendo assistido a cena toda pelo vidro da
sala de espera, a alguma distância, conforme me contou no caminho, e de onde os
bandidos nem chegaram perto. Mas a compreensão do risco corrido só me veio
mesmo depois que cheguei ao hotel e tomei uma longa ducha para me refazer, pois
que em situações como essa ninguém percebe em mim a menor alteração – inclusive
eu mesmo – no momento em que as coisas estão acontecendo. Parece que a ficha só
cai algum tempo depois e acho isso ótimo, pois que consigo raciocinar com toda a
calma e fazer aquilo que deveria. Melhor
do que perder o controle, como ocorre com a maioria, e correr ainda mais riscos
por conta do pânico.
Ao fim de tudo fiquei ficou-me
a impressão de que o clima de guerrilha da região do Baixo Araguaia ainda
permanecia por lá, décadas depois do episódio histórico. Pelo menos foi isso o
que senti, e que ficou até hoje como lembrança dessa experiência que se
aproximou de um “thriller” inusitado e nada burlesco até pra minha movimentada vida
nômade de consultor acostumado a muitas aventuras.
98. Conceição de
Macabú-RJ
99. Congonhas-MG
100. Conselheiro Lafaiete-MG
101. Contagem-MG
102. Cordeiro-RJ
103. Coroa Grande-RJ
98 – Conceição de Macabu-RJ – Desta nossa tríade de
“Conceições”, apenas Conceição de Macabu escapou ao clima de “thriller de ação”
proporcionado pelas outras duas por conta dos registros marcantes – para dizer
o mínimo – que trouxeram para minha vida de viajor ávido por experiências
excitantes. Pelo menos nos casos narrados não tive motivo algum para reclamar
de monotonia, rsrs!!! A cidade esteve
entre aquelas dezenove cujos gestores estiveram comigo participando do Programa
Lidera Rio levado a prefeitos e assessores da região norte e noroeste do
estado. Após as semanas em que tiveram aulas teóricas e apresentaram projetos
para seus municípios ao final de toda a capacitação, era minha vez de visitar
os municípios participantes para acompanhar a implementação, quando então foram
disponibilizadas 120 horas de consultoria em apoio ao pessoal local na parte
prática do programa. E foi isso que me levou a Conceição de Macabu, que fica
entre a serra e o mar na região norte do estado, com a maior parte de seu
território em altitude que varia de 300 a quase 1000 metros, o que deixa a
cidade na maior parte do ano com um clima bastante agradável.
99 –
Congonhas-MG
– A cidade mineira está situada numa região de serra a uma altitude de 870
metros, e tem em torno de 50.000 habitantes e a uma distância de 70 km da
capital BH. Congonhas possui um solo rico em minério de ferro, mas a maior
riqueza do lugar é, sem dúvida, a arte barroca do maior artista do Brasil nessa
especialidade: Antônio Francisco Lisboa, que se tornou mundialmente conhecido
por Aleijadinho. No adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, mostrada nas
fotos, Aleijadinho esculpiu as famosas imagens dos doze profetas em pedra-sabão
e em tamanho real, obras-primas da nossa arte barroca que são visitadas por
milhares de turistas daqui e do resto do mundo. Aleijadinho não se limitou a
elas, mas também foi quem esculpiu as imagens da Via Sacra das seis capelas que
compõem o Jardim dos Passos, em frente à basílica, estas esculpidas em cedro
pelo artista barroco. Todo o conjunto foi tombado pela UNESCO em 1985 como patrimônio
cultural da humanidade. O minério de ferro de alto teor da região atraiu para
lá uma unidade da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN, lembrando que minha
empresa, a Trimens Consultores, prestou consultoria para essa nossa maior
mineradora ao longo de 30 meses, e por conta disso é que eu e meu sócio fomos
até Congonhas, a "Cidade dos Profetas", que ainda hoje permanece como
um grande centro de peregrinação procurado por cinco milhões de peregrinos que
visitam Congonhas todos os anos durante o mês de setembro, quando se comemora o
jubileu do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, que é o nome oficial do santuário
dos doze profetas. A maior fonte de renda de Congonhas é a extração mineral e a
indústria metalúrgica, evidentemente, com uma mina em Casa de Pedra alí
coladinha, cuja visita ao Centro de Treinamento da CSN eu já descrevi na última
publicação. Mas, além dela, outras mineradoras também funcionam na cidade, como
a antiga Ferteco Mineração - hoje Mina da Fábrica - e a Vale, a Mina Viga (pertencente
à Ferrous), além da Gerdau Açominas, grandes empresas brasileiras de mineração
que todos conhecem.
100 –
Conselheiro Lafaiete-MG – E é aqui que atingimos a centésima cidade deste compêndio
de municípios visitados ao longo de minhas andanças por esse mundão de meu
Deus. E olhe que estamos apenas nas da letra
C, faltando todo o alfabeto ainda pela frente com outras centenas de cidades
para serem descritas, tanto pelo encantamento que despertaram como pelos
“apertos” vivenciados em algumas, como aqueles que nesta mesma sequência pude
relatar. Com uma população de 120 mil habitantes, aproximadamente, em um Brasil
tomado pela violência nestes dias sombrios Lafaiete foi classificada pelo IPEA
como uma das cidades mais seguras do país, ocupando o 9º. lugar nacional e o
segundo lugar em Minas Gerais. Sua localização é privilegiada e considerada
estratégica em termos de mercado pela proximidade de poucos quilômetros dos
maiores centros consumidores do sudeste brasileiro como Santos, Vitória e Rio
de Janeiro, e a apenas 96 quilômetros da capital BH. Assim como em Congonhas,
estive lá pela Trimens, minha própria empresa, durante o longo período de
consultoria prestado à CSN em Volta Redonda.
101 –
Contagem-MG – A
cidade integra a região metropolitana da grande Belo Horizonte, e a passagem ali
que mais marcou foi quando voltei lá especialmente para o reencontro com o diretor
da Missão de Estudos cumprida na Pensilvânia um ano antes, na cidade americana
de State College. A vinda dele ao Brasil foi recepcionada pela Fundação
Cristiano Otoni, uma das três nucleadoras brasileiras em Qualidade Total, junto
com o IBQN (do qual eu era consultor) e a paulista Fundação Vansolini. Eu
recebera o convite para ir ter com Selton Whitaker através da Cristiano Otoni
como integrante da Missão, mas não sendo um evento oficial, o critério de
aceitar ou não o convite era pessoal e não sujeito a cobertura pela empresa.
Mesmo assim meu Diretor Administrativo Wilson Paulucci assumiu a viagem, e tive
então todas as despesas custeadas pelo IBQN para o ansiado reencontro com o
Dr. Whitaker em Minas pelo IBQN, do qual acabei virando o “fotógrafo
oficial” a pedido dele próprio. Posturas como essa pelo Instituto integravam
nossa rotina, daí porque a tenho como uma das empresas mais incríveis que já
conheci ao longo de toda a minha carreira pelo profundo respeito e enorme
respaldo que oferecia aos profissionais que reunia em seus quadros, daí porque
a reputo até hoje como tendo sido “a empresa de minha vida” devido à visão
diferenciada de sua diretoria – na época ocupada pelo Presidente Guilherme
Lameira Bittencourt, pelo Diretor Administrativo Wilson Paulucci Rodrigues, e
pelo nosso Diretor Técnico Cláudio Campos – e o profundo respeito profissional
que sempre obtive por parte desse trio com quem muito me honra haver convivido
por tantos anos. Qualquer profissional poderia se considerar privilegiado ao
compor o quadro de profissionais do IBQN pelo enorme respeito levado aos seus
consultores, e que me deixava orgulhoso de integrar aquela equipe de
especialistas do mais alto nível.
102 –
Cordeiro-RJ
– Bastante conhecida em todo o estado como a "Cidade-Exposição" devido
à fama da Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Cordeiro, que todos
os anos acontece no Parque Raul Veiga, a cidade possui no parque um dos
melhores espaços do país para esse tipo de evento. Além dos tradicionais
concursos de animais, dos quais participam bovinos e equinos das melhores
criações do Brasil, grandes shows atraem milhares de pessoas que vêm dos quatro
cantos do país para o mega evento, cuja média diária de público é de 10 mil
pessoas. A mais antiga exposição do país, que teve sua primeira versão em 1921,
já serviu de palco para grandes nomes da música brasileira e trouxe grandes
negócios na área da agroindústria para o estado. Apesar de ainda não contar com
uma rede hoteleira de grande porte, a cidade recebe muitos visitantes nos fins
de semana. Apesar de pequena, a cidade de pouco mais de 20.000 habitantes tem
muito destaque na região por concentrar enorme movimentação de empreendedores
rurais e empresários agropecuaristas. Do alto de seus 485 metros de altura,
Cordeiro é uma cidade que encanta os visitantes por seu clima interiorano que
lembra vilarejos do oeste americano, mas com aquele nosso espírito bem patropi.
103
- Coroa Grande-RJ – Estive no lugar uma
única vez com irmão, primos e primas, amigos e namoradas, num grupo de umas 15
pessoas quando éramos todos adolescentes, na década de 70, para um acampamento
selvagem às margens do rio que cruza o vilarejo. Coroa Grande é um dos
distritos de Itaguaí que fica entre a Baixada Fluminense e a Costa Verde,
distando cerca de 70 quilômetros da capital fluminense próximo à Baía de
Sepetiba. É um lugar exuberante em natureza, cercado por ilhas e ilhotas, e
cortado por um rio com cachoeira, chamada de “Véu de Coroa Grande”. O clima é
de verão chuvoso principalmente entre
dezembro e janeiro, e foi justamente nesse período – por ser de férias escolares
– que fomos lá para um acampamento às margens do rio, pouco abaixo da
cachoeira. Logo na primeira noite, porém, desabou o maior toró. Choveu tanto
que o rio perdeu as margens por uma tromba d’água que acontecera mais acima, e
nosso acampamento foi inundado enquanto dormíamos, no meio da madrugada.
Acordamos com a enxurrada levando tudo o que era nosso, inclusive nossas
barracas, e rapidamente a água foi subindo até que já quase atingia nossas
cinturas. Foi um desespero, pois que estávamos no meio de uma floresta na mais
completa escuridão, sem enxergar um palmo adiante do nariz. Começamos a gritar
pela turma, para nos certificarmos que ninguém havia sido levado pelas águas, e
felizmente todos estavam ali, ensopados mas vivos. Demo-nos as mãos para que ninguém
fosse arrastado pelas águas, e instintivamente seguimos em direção à cabeceira
do rio, que era o lado mais alto, até virmos uma tênue luz ao longe, em meio à
escuridão, para onde caminhamos. Era um sítio de posseiros que acordaram com
nossos gritos. Colocados a par de nossa situação, cederam-nos um abrigo de
animais para nos alojarmos, um espaço de pau à pique com telhado mas sem
assoalho, com chão de terra batida. Batíamos queixo de frio e estávamos
encharcados, apenas com a roupa do corpo que tiramos para ninguém pegar uma
pneumonia e nos deitarmos em roupas de baixo, coladinhos uns aos outros para
nos aquecermos, sobre o chão ensopado. No dia seguinte conseguimos ligar para
nossos pais no Rio – não lembro como – que foram até lá nos buscar de carro,
pois que nosso dinheiro, nossas roupas e tudo o que tínhamos descera rio abaixo
durante aquela tumultuada madrugada que felizmente não resultou em tragédia.
Depois do sufoco ainda tivemos que ouvir muita bronca de nossos pais e tios,
evidentemente, que não gostaram nada de nossa aventura. De Coroa Grande só
restaram essas lembranças, pois que não houvera tempo nem para uma foto antes
que nossas máquinas fotográficas, assim como tudo o mais, fosse levado pela
enxurrada. Essa foto da cachoeira responsável pelo nosso susto foi capturada na internet para dar uma ideia da
beleza do lugar de mata virgem e beleza incomum. De herança daquele dia restou
uma grande experiência: nunca acampe na margem de um rio e muito menos perto de
cachoeiras, principalmente no período das chuvas!









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