Diário de Bordo - Recantos & Encantos XVI


EUA, Venezuela e Bolívia
131 Gettysburg é uma pequena cidade histórica no estado americano da Pensilvânia com cerca de 8.000 habitantes e muito conhecida por ter sido cenário da mais importante batalha da Guerra Civil dos EUA ocorrida entre o norte e o sul em 1863. É célebre por abrigar hoje um imenso museu histórico a céu aberto exatamente na área onde foi travada a violenta batalha, onde morreram milhares de americanos dos dois lados que se enfrentaram na guerra. Mais importante ainda porque o povo americano considera o local como solo sagrado por conta dos milhares de soldados tombados na revolução mais sangrenta de toda sua história. O museu e parque histórico hoje é um grande atrativo turístico da cidade, e que manteve inalterado o cenário da guerra. Por toda ele se pode ver um campo de batalha real com as mesmas barreiras de arame farpado, valas e trincheiras cavadas pelos soldados que se enfrentavam. O local é muito mais do que uma mera atração turística, pelo significado solene que os americanos atribuem ao lugar, o que impõe profundo respeito a qualquer visitante, mesmo que não conheça detalhes de sua história. A gente entre ali como se visitasse um templo ou um cemitério dedicado a seus maiores heróis. Visitei o campo sagrado de Gettysburg com meus companheiros da Missão Oficial de Estudos realizada na Universidade da Pensilvânia, em State College, numa das viagens culturais do nosso período de folga nos fins de semana. Foi um dos locais que mais me geraram emoção pela incrível história a que remete e também pelo clima que se sente ao percorrer o imenso parque histórico. Por todo ele se encontram monumentos fazendo alusão aos estados confederados e aos rebelados, que travaram ali sua mais sangrenta batalha. Veem-se estátuas dos seus principais personagens em tamanho natural espalhados por todo o gigantesco parque, como se estivessem em plena batalha, o que promove forte impacto por nos colocar dentro da história.


132 Guayaramerin-BOL é uma cidade da Bolívia com cerca de 50.000 habitantes que faz fronteira com uma cidade nossa em Rondônia que mantém o nome da boliviana, apenas com grafia e sotaque diferentes. Mas como não descobri a idade da cidade boliviana, não sei dizer qual o lado que copiou o outro. Os dois países ficam nas margens de um dos mais emblemáticos dos nossos rios, o Mamoré, que ainda volto a abordar nesta sequência “G” das cidades por que passei. Bem no meio do rio que separa as duas cidades está localizada uma simpática ilha que há décadas é disputada pelos dois países, situação que até hoje continua indefinida mas que, por enquanto, está sob a administração da Bolívia que a chama de “Isla Suárez”,  e que para os brasileiros é Guarajá-mirim como a cidade rondoniense à sua frente. Aquela região toda, que integra a Amazônia, foi uma das que me provocaram um tipo de emoção diferente que não sei precisar bem a causa. Talvez por sua rica história ligada à construção da Ferrovia Madeira-Mamoré pela então Madeira-Mamoré Railway Company, que funcionou exatos 60 anos a partir de 1912 atendendo os dois países, e cuja construção custou a vida de milhares de trabalhadores por uma epidemia de malária e outras doenças tropicais muito comuns na Amazônia daqueles tempos do sanitarista Oswaldo Cruz, que foi decisivo para debelar o surto com suas vacinas recém-descobertas.

133 Gran Sabana é uma região natural localizada no sul da Venezuela, no Planalto das Guianas, na parte sudeste do Estado de Bolívar, estendendo-se até a fronteira com o Brasil. Tem uma temperatura média de 23°C. Nela convivem diversos grupos indígenas, dentre os quais os PemonsA Gran Sabana faz parte de um dos maiores Parques Nacionais da Venezuela, o Parque Nacional Canaima, (https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_Canaimaonde se encontra o Salto Ángel (https://pt.wikipedia.org/wiki/Salto_%C3%81ngelque, com quase um quilômetro de altura, é a queda d'água mais alta do mundo.



 134 Goianésia-GO – É um município goiano com cerca de 70.000 habitantes próximo ao centro geodésico do estado (mesma distância dos limites pelos quatro pontos cardeais), ficando fácil encontra-la no mapa ao seguir um mesmo paralelo a partir de Brasília, pois que se encontram ambas geograficamente na mesma altura com Goianésia à esquerda e o DF à direita. De clima ameno e agradável (fica a 640 metros de altitude), a cidade vem concentrando indústrias de açúcar e álcool e se destacando no cenário nacional por conta da atividade. Já sedia três importantes usinas dessa indústria: a mais antiga, a Monteiro de Barros (hoje Goianésia) a Jalles Machado (fundada em 1980) e unidade Otávio Lage da Codora, e foi esse momento progressista da cidade que despertou a atenção do Sebrae Nacional e me levou até ela pelo Projeto Ideal, quando montei lá um Centro de Desenvolvimento Empresarial com as lideranças locais. O município passou a ser mais conhecido por sediar a Goialli, uma já conhecida empresa goiana de alimentos pelos brasileiros, e também a Vera Cruz, para citar apenas as mais importantes, mas ela vem mostrando também uma diversificação da economia digna de registro, notadamente pelo incremento do comércio na região, que vem tendo um desenvolvimento bastante significativo. Tanto que a maior parte do nosso grupo de trabalho era composto por empresários do comércio local.

135 Goiânia-GO – A capital goiana me lembra tanto a mineira que às vezes chego a confundir as duas, sei lá porque. Talvez porque foram ambas planejadas e trazem características semelhantes, ainda que eu ache BH mais aprazível e com clima mais ameno que Goiânia, que considero quente demais para seus mais de 700 metros de altitude. Como capital importante do país, estive em Goiânia inúmeras vezes por conta de muitos projetos diferentes, tanto pelo IBQN quanto pelo Sebrae Nacional, o que dificultaria mencioná-los todos, mas numa das vezes em que eu voltava de lá por Brasília, vivenciei uma experiência aérea inusitada quando cheguei em cima da hora do vôo que deveria me trazer para o Rio, em que fui o último a entrar no avião, experiência essa da qual nunca esqueci e agora dou os detalhes, já que a ideia do blog não é apenas descrever as cidades, mas também registrar os fatos mais pitorescos e inusitados ocorridos em cada uma das viagens.
Como mencionei, fui a última pessoa a embarcar, pois que todos os passageiros já se encontravam acomodados na aeronave e mais cinco minutos para chegar ao aeroporto eu perderia o avião. Na sala de embarque localizei logo a porta que indicava o número do meu vôo, e estendi meu cartão de embarque ao funcionário, bem em frente a um “finger” que dá acesso às aeronaves. Como é comum, estas costumam ficar posicionadas em frente ao portão onde o ticket é checado pelo funcionário, que destaca o canhoto após conferir seu bilhete e a identidade. Ele fez isso, agradeceu e me deixou passar, e eu entrei pelo “finger” que estava exatamente atrás dele, como seria o normal. Além disso eu estava sozinho, a sala já esvaziada, e o funcionário não disse mais nada a não ser “Obrigado e boa viagem!”. Entrei no avião, que era um daqueles enormes MD11 de dois corredores entre fileiras de 3, 5 e 3 poltronas, e procurei pelo meu assento Delta 1, que era bem na primeira fileira do bloco central de 5 poltronas, em frente à tela de cinema da aeronave, ou seja, o quarto assento da primeira fileira, da esquerda para a direita. Por sinal, era o único assento vazio que pude notar, já que fora o último a entrar e o avião parecia estar lotado; tanto que foi apenas o tempo de colocar minha mala de mão no bagageiro para fecharem as portas e anunciarem a autorização de decolagem. Assim que o avião começou a taxiar em direção à cabeceira da pista, a comissária se posicionou à minha frente e iniciou as instruções de segurança, que ainda não eram transmitidas por vídeo como agora.
Foi quando bati os olhos no uniforme dela e dei um pulo na poltrona quando vi o chamativo laçarote colorido ao pescoço em vez do discreto lenço azul marinho que deveria ser pois que, acostumado a voos toda semana, logo identifiquei que era o da Transbrasil, ao tempo que pelo alto-falante o comandante anunciava nosso tempo de voo ATÉ RECIFE. Só que meu voo seguiria para o Rio – exatamente em sentido contrário – e era da VARIG. Interrompi a comissária no início das instruções, e ela apenas correu em direção à cabine de comando para avisar o piloto que havia um passageiro embarcado em voo errado. Logo em seguida ouvimos o comandante falando ao microfone que estaríamos retornando ao pátio de embarque por motivo de encontrar-se à bordo um passageiro não pertencente àquele voo, e que a aeronave da Varig também estava retornando da cabeceira da pista até o pátio para desfazer a troca. Corri para pegar minha mala no bagageiro à minha esquerda, e na pressa de abri-lo, despencaram casacos e chapéus sobre a cabeça de um passageiro embaixo dele. Imaginem meu constrangimento, pedindo desculpas e enfiando tais coisas de volta no bagageiro de onde retirara minha mala. Ainda bem que nada pesado caiu sobre ninguém, mas eu sentia todos os olhares do imenso avião voltados para mim – única pessoa de pé – e a sensação foi péssima, pois parecia me fuzilarem com o olhar, não sei se de  fato ou se por conta de meu sentimento de culpa por fazer duas aeronaves lotadas de pessoas voltarem ao pátio de embarque por minha causa: uma para me devolver, e a outra para me buscar. Foi a primeira vez que experimentei a sensação de receber uma atenção enorme de mais de 800 pessoas e ainda assim preferir não estar na minha própria pele! O contrangimento foi tanto que eu quis sair da linha de visão daquela quantidade enorme de gente com os olhos todos voltados para mim, e fui me refugiar na cozinha frontal, onde ficavam os comissários de bordo. Eu perguntei como algo desse tipo poderia acontecer, de se entrar num avião errado com tanta facilidade, e um comissário limitou-se a dizer, com um sorriso compreensivo e tranquilizador, que “de vez em quando acontece!”.
Pra eles até poderia não ser incomum, mas pra mim foi. Em todos os anos de até vários voos por semana aquilo nunca me acontecera antes, e eu estava passado com a situação. A aeronave parou de se movimentar, o “finger” colou nele e logo abriram a porta, onde já me deparei com um funcionário do lado de fora aguardando por mim, que apenas me pediu que o seguisse e saiu em desabalada carreira pelo “finger”, e eu atrás dele puxando a mala. Um pequeno trecho pelo corredor que contorna as salas de embarque e já entramos por outro “finger” onde os comissários da VARIG já me esperavam na porta do avião, batendo a porta atrás de mim tão logo eu entrei nele. O avião já taxiando de volta para a cabeceira da pista, eu sentado em meu lugar, exatamente na mesma posição do anterior, e foi só quando comecei a raciocinar sobre como aquilo poderia ter acontecido. Meu primeiro sentimento foi de gratidão aos pilotos pela consideração de voltarem com ambos os aviões – com capacidade para 410 passageiros cada um – apenas para me colocarem no voo certo. Pelo menos foi o que pensei, até me acalmar e tomar consciência de que eles não estavam querendo apenas ser “bonzinhos” comigo, e eu nem tivera a maior parte da culpa como pensara a princípio, e por um motivo bem simples: as regras da aviação comercial são extremamente rígidas no que toca a todo o conjunto de fatores que contribuíram para aquele inusitado acontecimento. A começar pelo funcionário da sala de embarque que destacou meu cartão e sequer me apontou um “finger” diferente daquele que estava exatamente às suas costas. Depois nem olhou para trás para ver se eu seguira o caminho mais lógico – que era o do “finger” à minha frente – para impedir que eu entrasse no avião errado. Os dois pilotos da VARIG e da Transbrasil, por sua vez, não fizeram mais nada do que cumprir uma regra OBRIGATÓRIA ao retornarem ao pátio para me colocarem no voo certo, pois imaginem o resultado se não o fizessem: no avião da Transbrasil eu viajaria como clandestino, e no da VARIG eu figuraria como pessoa desaparecida, pois que tive o cartão destacado pelo funcionário no embarque e não chegara ao meu destino. Alguém pensou nas responsabilidades legais para as duas empresas aéreas em ambas as situações?
Pra completar a sequência de fatores inusitados foi que notei a lotação completa em ambos os voos:  como último a embarcar, não vi um único assento vazio além do meu em ambas as aeronaves. Na da Transbrasil, o mais lógico era que eu encontrasse outra pessoa sentada na poltrona D1, o que não aconteceu, pois que o equívoco seria desfeito ainda no pátio de embarque pela coincidência de bilhetes com o mesmo número, antes do deslocamento da aeronave. Por uma dessas coisas inusitadas que acontecem, o número de meu assento coincidiu com o único que estava vazio na aeronave errada. E no meu voo também foi o único assento que percebi desocupado ao tomar meu lugar. Então eles não fizeram toda a operação apenas para serem camaradas com seu passageiro em apuros, como julguei a princípio. Se um dos aviões sofresse um acidente grave, por exemplo, no da Transbrasil eu não apareceria na lista de sobreviventes ou de mortos, e no da VARIG eu seria dado como morto de corpo não encontrado, e todos teríamos um enorme problema para corrigir a sequência de equívocos! Da história toda, afinal, descobri que eu é que tivera a menor culpa no episódio! A partir desse dia nunca mais deixei de perguntar ao funcionário do embarque, caso ele se omitisse, se o “finger” exatamente à nossa frente era o que me levaria para dentro do avião certo!

136 Governador Valadares-MG – É um município localizado no Vale do Rio Doce, no interior mineiro, equidistante das divisas norte e sul do estado, mas próximo de sua divisa à leste com o Estado do Rio. Valadares, como é mais conhecida, ainda é uma cidade de porte médio, com menos de 300 mil habitantes, e tem um IDH alto quando comparado à média do estado. Nunca estive lá a serviço, e a visitei uma única vez em visita de família quando meu filho ainda era bem pequeno. Fomos visitar minha cunhada que morou lá por uns tempos, e a visita resultou num saldo de lembranças negativas e dolorosas, talvez a mais marcante desde que me tornei pai e se tem a experiência de ver um filho vítima da ignorância de pessoas pouco esclarecidas. Por conta do episódio retornamos mais cedo do que o programado, e lamentavelmente não tive chance de conhecer pessoalmente os locais aprazíveis que a cidade tem para mostrar. Uma pena!
137 Guapimirim-RJ –  O município faz parte da  Baixada Fluminense, que compõe a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ficando a 60 km da capital. Atualmente tem perto de 60.000 habitantes e seu ponto turístico mais famoso é o Dedo de Deus, embora o pico famoso apareça sempre associado a Teresópolis. A particularidade é que a cidade tem uma  variação de altitude muito grande que vai de 48 metros – onde fica o ceu centro – até 700 metros de altura. O Dedo de Deus tem sua base em Guapi, como é chamada pelos locais, mas como a Serra dos Órgãos que integra fica entre vários municípios da região serrana, o pico acabou como símbolo das cidades mais conhecidas – como Teresópolis e Petrópolis – do que de Guapimirim. Acostumado a cobrir toda a região metropolitana e a Baixada pelo SEBRAE-RJ, estive muitas vezes na cidade para realizar diversos trabalhos com microempresários locais.
138 Guarujá-SP – Apelidada de “Pérola do Atlântico” por conta de suas belas praias, a cidade a 95km da capital paulista, é uma estância balneária com cerca de 380 mil habitantes muito procurada pelos paulistanos e turistas que descem para a baixada santista nos fins de semana em busca do litoral praiano do estado. Não tive oportunidade de realizar nenhum trabalho na baixada santista, mas a região marcou muito minha infância e ficou muito ligada ao período que moramos em Campinas, com frequentes deslocamentos nos fins de semana para as cidades do litoral de São Paulo. Papai tinha uma irmã que morava em Santos, e quando íamos estar com ela nos fins de semana aproveitávamos para aproveitar as belas praias de Guarujá e São Vicente, que me deixaram fortes lembranças por ter sido meu primeiro contato com o mar. Jamais irei esquecer a visão daquele dia em que acabáramos de descer a Serra do Mar pela Anchieta (na época ainda não havia a Imigrantes) e após cruzarmos São Vicente e seguir pela Bernardino de Campos – a principal avenida de acesso – me deparei com aquela visão magnífica da praia no trecho mais central da Baia de Santos. As ondas em ressaca rebentavam fortemente nas areias da baía naquele dia, explodindo em espumas brancas que me deixaram deslumbrado e com o coração aos pulos pela emoção de ver o mar pela primeira vez, aos onze anos de idade. Inesquecível! Depois disso voltamos lá muitas vezes, durante aquele período gostoso de minha infância, mas a imagem do mar ao saímos da avenida para encontrar a praia jamais se me apagou da memória.

139 Guarulhos-SP – Quem sai do Rio pela via Dutra com destino à capital paulista obrigatoriamente tem que cruzar Guarulhos para chegar a São Paulo. A cidade colada à capital do estado, e que até 1880 era um de seus distritos, possui a maior população do país entre as que não são capitais, possuindo hoje perto de 1.400.000 habitantes. Contar as vezes que passei por Guarulhos seria uma tarefa difícil, já que em muitas escalas nacionais ou internacionais se pousa no aeroporto da cidade paulista. Minha estória com Guarulhos iniciou-se muito cedo, pois trabalhando no setor de câmbio do Banco do Brasil, o trabalho de campo de meu pai era o de realizar fiscalizações em alguns aeroportos internacionais paulistas para inibir o contrabando, e de vez em quando me levava junto nos seus plantões. Lembro-me de ter ido algumas vezes com ele a Viracopos e a Cumbica, o aeroporto internacional de São Paulo que, na verdade, fica em Guarulhos. Nessas ocasiões papai me levava para conhecer as torres de controle de voo, onde os controladores me explicavam tudo o que acontecia ali, e eu adorava olhar a pista e ver todas aquelas aeronaves pousando e decolando lá do alto. Lembro-me bem de ter sido lá que vi um telex pela primeira vez. Aquela “máquina de escrever” que recebia textos digitados em lugares distantes me fascinou bastante, até que bem mais tarde eu mesmo as operava durante o tempo em que trabalhei na Embratel, na década de 1970. É bem possível que ali começou o meu fascínio por aviões, daí porque assim que atingi idade para trabalhar, o primeiro emprego que fui buscar foi o de comissário de bordo, ocasião em que me reprovaram na última etapa, a da entrevista final, porque caí na bobagem de revelar que o que me interessava mesmo era chegar a ser piloto, e me responderam que eram duas coisas absolutamente distintas. Pra mim, no entanto, o que mais importava passar meus dias dentro de um avião. Se pilotando ou não, isso para mim era secundário. Alguns anos depois acabei por acaso como gerente de treinamento da VARIG para os estados de RJ, SP e RS, cargo que ocupei por apenas duas semanas, pois fui chamado pelo IBQN, e então nunca mais parei de voar. Seria o exemplo clássico do desejo atendido por vias indiretas, dentro daquele conhecido provérbio de que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Lembro de uma frase que ouvi de meu pai logo nos meus primeiros tempos de IBQN, quando me via embarcar toda semana para realizar meus trabalhos. Disse-me ele: “Veja só, você queria trabalhar para a Varig, e agora é ela quem trabalha pra você!”.  E ele estava certo. A partir daquele ano de 1992 eu nunca mais parei de voar, e nem como gerente de treinamento da companhia aérea eu ficaria tão íntimo dela quanto nos tornamos ao longo das décadas que se seguiram.
140 Gramado-RS – Se alguém disser que Gramado é uma das cidades mais bonitas do Brasil pode levar fé que a pessoa não estará exagerando. Quando se chega lá, logo no primeiro momento a gente fica deslumbrado com tanta beleza.  O município de cerca de 35.000 habitantes fica a 830 metros de altura em plena Serra Gaúcha, um dos recantos mais lindos do Rio Grande. A população tem forte influência alemã e italiana, e a arquitetura reproduz fielmente esses países europeus, com uma paisagem de tirar o fôlego, e um clima que também deixa a gene se sentindo na Europa. A economia é totalmente voltada para o turismo, e isso dá à cidade um diferencial e tanto. Pode-se dizer que ela é irretocável, como se passasse ao largo das mazelas que a gente encontra nas demais cidades do país. Parece perfeita demais para ser verdade, como se fora uma maquete e não um lugar onde mora gente. Estive em Gramado em duas ocasiões separadas por pelo menos 30 anos entre uma e outra. Na primeira foi naquela viagem com amigos, em que seguimos pelo litoral de carro acampando em todas as cidades das regiões sul e sudeste por onde passamos ao longo do caminho. Naquela ocasião visitamos várias da Serra Gaúcha além de Gramado, como Canela, São Francisco de Paula e outras. Mas a Gramado que encontrei agora em 2018 nem de longe me pareceu aquela de 30 antes, a começar pelo clima que pegamos: naquela ocasião pegamos temperaturas de média a quente, pois que era janeiro, bem no início do verão. Já deste vez a viagem aconteceu no meio do ano, no período mais frio, e a gente quase congelou. Fomos eu e meu mano Almi. e a temperatura mais amena que pegamos lá foi de 4 graus. Só que 4 graus na Serra Gaúcha me pareceu 20 negativos, sem exagero. No Canadá enfrentei nevasca e temperaturas de até menos 30 graus e posso jurar: não senti tanto frio lá quanto senti em Gramado. A sensação térmica daqui era petrificante, literalmente. O frio da Serra Gaúcha chega a doer nos ossos. Já no Canadá e na Europa não incomoda tanto por ser um frio seco, que um casaco de nylon é bastante para segurar o calor do corpo e não doer por dentro como o da Serra Gaúcha. Então usamos tudo o que tínhamos direito, além dos capotes, tocas, luvas e cachecóis. Não faltaram nem os “ear moofs”, pois sem eles se tinha a sensação de que as orelhas iriam congelar e se quebrarem como vidro!  Mas tudo lá é lindo demais, a começar pela arquitetura toda em estilo europeu. Na mesma semana que passamos lá coincidentemente acontecia o famoso festival de cinema, para entrega dos prêmios Kikito. Mas as atrações não ficam por aí: tem o Harley Motor Show, o Hollywood Dream Cars, o Salão do Super Carros, o Mirante Vale do Quilombo, os lagos Negro e o  Joaquina Bier, o famoso pórtico da entrada via Taquara e o da entrada via Nova Petrópolis, o Mini Mundo, a Cascata Véu de Noiva, o Palácio dos Festivais, a Praça das Bandeiras, a rua Madre Verônica (conhecida como Rua Coberta), a praça Major Nicoletti, a Igreja São Pedro Apóstolo, o Centro de Cultura, o Museu do Cinema, as fábricas de chocolate,  a roda d’água Colonial, o Museu de Cera Dreamland, o Snowland (um parque incrível para esportes de inverno, com neve e tudo)... Enfim: lugar lindo pra se ver é o que não falta. Se fosse publicar as fotos que se consegue tirar nesses lugares precisaria criar um álbum inteiro só para Gramado. Outra coisa que difere o local do resto do país: lá não se vê população de rua, nem camelô em canto algum da cidade. E também não há transporte coletivo, exceto os ônibus de “sightseen”, idênticos aos londrinos (aqueles vermelhos com dois andares) que rodam com os turistas. De forma que lá só se anda de taxi. Decididamente Gramado não é uma cidade para as classes mais baixas. O custo de vida é altíssimo. Se quiser aproveitar tudo prepare o bolso, porque se vai gastar um bocado, a começar pela comida, oferecida a preço de ouro! Ninguém come lá num self-service simples por menos de 35 a 40 reais, por baixo (preços de 2018)! E estou falando do prato de uma pessoa que come pouco, não do quilo.

141 Grussaí-RJ é um dos distritos de São João da Barra, no litoral norte do estado do Rio, e um balneário tradicional dessa região do Norte Fluminense.  Com cerca de 8.000 habitantes apenas, é uma daquelas cidadezinhas gostosas e pacatas que está cada vez mais difícil encontrar, com uma lagoa desde há muito usada como fonte de renda para pescadores. Historicamente o lugarejo vivia da pesca pelos caboclos locais, que depois se misturaram a estrangeiros que diz-se haverem naufragado ali perto ao se aproximarem pela costa, acabando por se instalar o local, razão porque hoje ainda se vê na cidade, contrastando com o típico habitante do local, muitas pessoas de olhos azuis muito claros. O lugar tem poucos atrativos além de sua lagoa e de sua orla paradisíaca, e foi escolhido, por razão que desconheço, para sediar o SESC Mineiro, um clube de campo muito bonito que passou a ser uma espécie de “embaixada de Minas” naquela região do estado. Realizei pelo Sebrae Nacional um único trabalho em Grussaí, tendo feito uso exatamente das instalações do SESC para aplicar o treinamento aos empresários locais. Foi um daqueles cursos que compunham o Projeto Ideal da instituição levado ao país inteiro, e que me aos mais remotos dos muitos municípios que venho descrevendo, de acordo com as premissas estabelecidas para o projeto. Grussaí tem, coincidentemente, outro ponto em comum com minha história:
suas terras em fins do século XIX foram adquiridas por Manuel Joaquim da Silva Pinto, casado com Branca Saturnino Braga, que ali construiu as duas primeiras casas de veraneio da região. O que isso tem a ver comigo? É que quando voltei para Niterói em 1992 – após o período de quase 8 anos em que morei em Angra dos Reis e Volta Redonda – fui morar no apartamento da praia de Icaraí que pertencia ao então Senador Saturnino Braga, bastante conhecido na década de 90 e hoje já afastado da vida política. Por contar apenas com ensino de 1º grau, o que produz limitadas condições de estudo e trabalho, Grussaí continua bastante dependente da sede do município e também de Campos dos Goytacazes, maior cidade do Norte Fluminense.

142 Guajará-Mirim-RO – é uma cidade do estado de Rondônia situada às margens do Rio Mamoré, com menos de 50.000 habitantes, sendo o contraponto brasileiro para a Guayaramerin boliviana, de que já tratei ainda nesta sequência G das cidades visitadas. O que Guajará tem de mais bonito, além de sua localização, é a sua história, que inclui ter o primeiro jornal editado em língua indígena txapacura ainda circulando na cidade. Até princípios do século XIX o município não passava de uma referência geográfica para a divisa do país com a Bolívia, exatamente na altura onde se encontra Guayaramerin. À época da fundação da nossa Guajará Mirim, a ilha existente entre as duas cidades posicionadas uma em frente à outra figurava como um território de terras devolutas, ou seja, que não tinha definição de pertencimento, e dois séculos depois a situação permanece indefinida, por incrível que pareça, sendo disputada pelos dois países. Para os bolivianos ela é Suárez, e pelos brasileiros recebeu o mesmo nome da cidade à sua frente: Guajará Mirim, vista como se fora um bairro da cidade que lhe deu seu nome. Suárez ou Guajará, como a chamamos, não é uma ilhotazinha sem importância: sua extensão é de quase um terço da cidade pelo lado brasileiro.
Não me perguntem porque, mas aquela região dos rios Guaporé, Madeira e Mamoré me despertam um fascínio que não sei explicar bem a razão, mas que penso estar associado à riquíssima história de sua colonização e da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, inaugurada em 1912, e que envolveu uma verdadeira saga que quase dizimou quase a integridade de seus construtores por conta das doenças tropicais. A região também possui uma riqueza cultural extraordinária, além de uma população indígena de enorme importância cultural no período da colonização da região. Durante o conhecido ciclo da borracha na região norte do país, a extração do látex foi um marco decisivo na vida de Guajará Mirim, com o crescimento da cidade acelerado pela construção da ferrovia. Além das doenças típicas da região amazônica da época, os trabalhadores da estrada de ferro também sofriam ataques dos índios que habitavam a região quando de sua chegada, como também aos seringueiros que se instalaram no local, ação essa esperada uma vez que, como seus primitivos moradores, a população indígena se viu de repente invadida e expulsa pelo progresso levado à região pelo transporte de riquezas e pela exploração da borracha. Esses pioneiros que chegaram à região atraídos pelas oportunidades nessas frentes de trabalho em franca expansão ficavam no fogo cruzado dos ataques constantes dos jauis, tupis, hauris, pacaás, jarús e outras tribos que não lhes davam trégua em muitos combates contra os colonizadores extrativistas chegados para explorar os benefícios da região cortada pela nova ferrovia, lembrando que à época ainda integrava o Território Federal do Guaporé, transformado depois no estado de Rondónia quando deixou de ser administrado pela União. A Estrada de Ferro Madeira Mamoré, no entanto, seguiu funcionando até 1970, quando foi fechada por conta de seu custo elevado de manutenção para o governo federal, que também atendia o escoamento de produtos bolivianos.
Guajará-Mirim permanece como o maior atrativo da indústria de turismo em larga escala no Estado de Rondônia, e toma pra si a responsabilidade como guardião de sua história, a partir da saga dos pioneiros construtores da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a presença marcante e significativa de religiosos católicos na colonização de todo o Vale do Guaporé e as inúmeras construções que retratam a história de uma época em que o município concentrava toda a riqueza da região norte do país, baseada na extração da borracha e da castanha. O artesanato local, de forte característica indígena, também é um das maiores riquezas daquela região atualmente.

143 Guaratinguetá-SP é um dos municípios mais importantes do Vale do Paraíba, e cercado por municípios como  Campos do Jordão, Delfim Moreira, Piquete, Cunha, Aparecida do Norte, Pindamonhangaba  e Lorena, para citar apenas os mais conhecidos.
Foi um dos principais produtores de café, e uma das maiores bacias leiteiras do país, possuindo uma arquitetura que mistura casarões da época colonial com prédios e construções modernas. Com localização privilegiada a exato meio caminho entre as duas maiores capitais do país, e posicionada entre as três mais desenvolvidas, Guaratinguetá aparece como ponto estratégico como centro de comércio e prestação de serviços, atraindo pessoas do RJ, SP e MG.
Ainda que tendo desenvolvido trabalhos em outros municípios do Vale do Paraíba, Guaratinguetá entrou na minha vida apenas como local de lazer e onde eu seguramente os mais belos de minha vida durante o período do meu casamento com a Lê, pois lá encontramos nosso refúgio dos fins de semana e de todos os feriados ao longo de vários anos, quando éramos frequentes na Estância Naturista do Rincão, onde fizemos mais de uma centena de grandes amigos. Considero Guaratinguetá como o local onde me senti acolhido pelo melhor grupo de pessoas que pude reunir em toda a minha vida, quando nos sentíamos rodeados por um tipo cada vez mais raro de gente de verdade, que cultua valores em padrão elevado de sinceridade, respeito e integridade como não encontrei em nenhum outro lugar do mundo. O tempo de convívio com tantas pessoas dentro desse contexto de amizade e carinho tão fortes que reputo como inigualáveis foi um dos maiores privilégios de que pude desfrutar ao longo de toda a minha existência, daí porque a cidade se transformou num verdadeiro marco para a saúde do meu espírito e o meu paraíso na terra. Coisas como essas é que emprestam a este compêndio um valor inestimável no que toca ao registro de memórias dos lugares mais incríveis que já tive oportunidade de conhecer, prestando-se a reforçar o sentido para entender essa maravilhosa diversidade que temos no país, como também a que se estende para além de nossas fronteiras.

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